sexta-feira, 3 de março de 2017

«Estórias da bola»



A minha falta de motivação era tal que já dava para alguns episódios rocambolescos.
Como alguns devem saber, nos campos de futebol os tratadores da relva costumam espalhar adubo para que a erva possa crescer mais rapidamente. Esse adubo atrai sempre pássaros.
Levava uma espingarda de pressão de ar, sentava-me no banco de suplentes e começava aos tiros.
Até tinha uns arames agarrados à cintura para prender os pássaros mortos.

Os meus colegas iam para os treinos com as suas pochetes, eu ia de pressão de ar. Era o único que fazia isto.
Cheguei a ter uns belos petiscos com os meus amigos do Montijo à conta dos pássaros que apanhava no estádio.
Nessa altura a caçadeira também servia para irritar Eriksson.
Durante algum tempo o nosso balneário chegou a estar situado mesmo em frente à porta do gabinete do treinador.
Eu estava num cacifo ao fundo do balneário e Neno, guarda-redes, estava noutro na parte da frente que tapava a visão para a minha zona.
Aproveitava a minha posição mais recatada para dar tiros contra uma placa que estava pendurada nessa porta e dizia «treinador principal». Por causa dos meus tiros, a placa era substituída todos os meses.
Eriksson estava dentro do seu gabinete e de repente ouvia um estrondo.
Vinha de lá lançado, armado em polícia, mas quando espreitava já não via nada, porque eu estava de lado e escondia a pressão de ar com a porta do cacifo.

Estas eram algumas das parvoíces que eu fazia no Benfica para passar o tempo e disfarçar a azia que tinha por não jogar.


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