quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

COROADO RECORDA AZIA NO CHAVES-SPORTING



Antigo juiz lisboeta, de 60 anos, recorda o Chaves-Sporting de 1999, fala da célebre sensação de azia e diz que o problema hoje é a falta de formação.

RECORD: Por que sentiu ‘grande azia’, depois do último Chaves-Sporting, a 23 de janeiro de 1999?

JC – Porque tinha noção de não ter feito uma boa arbitragem. E porque só foram referidos os erros que teriam prejudicado o Sporting, quando houve um penálti favorável ao Chaves que eu, estúpido, bloqueado não sei porquê, não sinalizei. Com 1 minuto e 20 segundos de jogo.


R: Mas foi contestado por mais decisões…

JC –O que dizem que foi golo limpo para mim não foi, porque o Beto fez falta. Na jogada do Simão à entrada da área, o Sporting reclamou mas não tinha razão. Depois, sim, veio um lance caricato.

R: O penálti sobre Beto?

JC – Sim. Um jogador do Chaves [Barbosa] agarrou-o e fez falta passível de penálti. Já estávamos em período de compensação e não dei seguimento. De forma inconsciente, ou subconsciente, foi uma tentativa de equilibrar um erro com outro erro. Entrei num ciclo de compensações, que é a pior coisa que um árbitro pode fazer. ‘Não assinalei aquela mas agora também não assinalo esta’. E isso para mim foi uma lição tremenda, foi um ensinamento extraordinário.

R: Percebeu de imediato que tinha errado?

JC – Logo a seguir ao jogo, com os meus colegas, quando jantávamos e trocávamos impressões. No dia seguinte, perguntaram-me o que eu tinha a dizer sobre a minha prestação e eu respondi que estava com uma grande azia. Nós estávamos proibidos de nos manifestar tecnicamente sobre as nossas prestações. E aquela expressão foi para demonstrar a minha insatisfação e o desagrado por constatar que as análises eram parciais, pois olhavam só para o Sporting e não para o Chaves. Nesse jogo fui incompetente, tão simples quanto isto.

R: Ato contínuo, o Sporting decretou luto, em protesto. Como olha para esses acontecimentos?

JC – Decorridos 18 anos, posso considerar-me um zombie. Devo fazer parte dessa série que anda aí, o ‘Walking Dead’ [risos].

R: Quer explicar?

JC – O Sporting decretou luto, eu estou vivo, devo ser um morto-vivo [risos]. Renasci das cinzas.

R: Mas como vê o facto de pouco ter mudado, a avaliar pelas críticas de que a arbitragem é alvo?

JC – Já vai para 16 anos que deixei a arbitragem. Fui árbitro durante quase 30 anos. Fiz 2.763 jogos. O ser humano não se alterou. O corpo continua a ter 60% de água. Continua a ser feito de carne, ossos, músculos, cabelo… É igual.

R: E continua a falar-se mal da arbitragem, é isso? 

JC – Continua e vai continuar, porque [os responsáveis] não são capazes de olhar para si próprios. Os árbitros hoje não têm formação adequada. Tenho visto erros esta época na primeira categoria que no meu tempo no Distrital era um puxão de orelhas e três semanas sem arbitrar. O problema atual da arbitragem portuguesa está na formação. E sobretudo ao nível dirigente. A história do árbitro coitadinho para mim não serve. Errar é humano, mas também é muito humano procurar evitar o erro.
Entrevista ao Jornal Record

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