domingo, 15 de janeiro de 2017

Benfica e Sporting levam os adeptos ao contraditório

O dia de ontem foi de emoções contraditórias em relação aos adeptos do Benfica e do Sporting.

O Benfica cedeu um empate na Luz com o Boavista e o Sporting não aproveitou em Chaves para encurtar distâncias para o líder.

Não tenho dúvidas que os jogadores do Sporting tiveram acesso ao resultado da Luz quando os encarnados estavam a perder por 0-3.
Normal que tenha acontecido um sentimento de euforia (controlada, acho eu!) e depois o empate final poderá ter tirado a tal motivação extra que até ali tinha-se apoderados dos leões.
O Sporting entrou apático em Chaves e mesmo com muita dedicação dos jogadores, não conseguiu os três pontos.


Em baixo, deixo as duas crónicas feitas no Observador sobre os dois jogos dos rivais de Lisboa.


Tirar ou não tirar o “pinheiro”, eis a questão

Cedo o Sporting começou a perder em Chaves. Bas Dost empatou e viraria o resultado.

E saiu. Talvez cedo demais. Quando o Chaves fez o 2-2, faltava lá ele para fazer o que melhor sabe: golos.



Era preciso tomar uma decisão. E rapidamente. Raúl José ajeitou o headset e de lá ouviu Jesus (castigado e a ver o jogo na bancada) dar uma ordem. O Sporting empatava (1-1) em Chaves e Rúben Semedo acabara de ver o segundo cartão amarelo — é a terceira vez que o central é expulso por duplo amarelo no último ano. Paulo Oliveira saltou do banco, tirou o fato-de-treino à pressa e fez uns sprints logo ali, sem ter sequer tempo de aquecer antes de entrar. A substituição estava pronta. O minuto era o 73. Certamente sairia alguém do meio-campo ou, quem sabe, um dos suplentes (Bryan Ruiz ou André Felipe) que entraram ao intervalo.
Depois, dois minutos depois, o Sporting marcaria. Paulo Oliveira viu o golo ainda fora do relvado, à espera para entrar. Três toques. Um: Ruiz desmarcou num passe longo André Felipe dentro da área, ligeiramente descaído para a esquerda e sem ângulo para chutar. Dois: André cruzou de primeira para o primeiro poste, um cruzamento rasteiro, forte e à espera de um desvio. Três: Bas Dost antecipou-se a Freire e, nessa nesga que conseguiu ganhar ao central do Chaves, desviou para o poste contrário e para dentro da baliza.
Era preciso tomar uma decisão. E mais rapidamente ainda, pois Oliveira entraria mal acabassem os festejos e a bola regressasse ao meio-campo. Saiu Bas Dost. Antes do golo, e com o Sporting a empatar em Chaves, certamente não sairia o “pinheiro” que todos procuravam com cruzamentos e mais cruzamentos, em busca do empate e, a seguir, da reviravolta no placard. Mas a um quarto de hora do fim, e vencendo, o Sporting resolveu tirar Bas Dost: era tempo de segurar a vitória. Sabendo o que sabe a esta hora, Jesus tiraria outro qualquer e não o holandês. Talvez saísse André. Talvez Ruiz. Qualquer um menos ele. É que o “pinheiro” fez falta no tempo extra.
“Culpe-se” Fábio Martins e o golo de uma vida. João Patrão tentou desmarcar Rafael Batatinha (os dois entraram com a segunda parte a decorrer) nas costas da defesa do Sporting. O passe era “a rasgar”. E Batatinha ficaria cara a cara com Patrício, que logo tratou de sair da baliza. Não foi preciso. Coates não deixou. Esticou-se todo, deslizou sobre o relvado e não deixou. O problema é que o corte do uruguaio acabou nos pés de Fábio Martins. O outro problema é que Patrício saiu da baliza e continuava mais adiantado do que deveria. E Fábio rematou de primeira, fazendo um “chapéu” ao guarda-redes do Sporting. Sim, é o golo de uma vida. Mas é golo. E o Chaves empatava o jogo.
Voltemos atrás no tempo. E voltemos ao início do jogo. Literalmente ao início e aos quatro minutos.
Golo madrugador do Chaves e de Rafael Lopes, erro de marcação (a roçar o amadorismo, diga-se) de Ricardo Esgaio. Mas a culpa do golo do Chaves (falemos primeiro da “culpa” e mais adiante do mérito que também há) não é apenas dele. Bruno César (que hoje foi defesa-esquerdo) subiu, deixou o flanco à mercê de Perdigão, não recuperou o lugar, Perdigão foi desmarcado desde a defesa e correu que se desalmou, olhou para a área, saiu-lhe do pé direito um cruzamento longo e, ao segundo poste, Lopes cabeceou à vontade. Porquê “à vontade”? Simples: Esgaio, que o deveria seguir, não seguiu, não saltou com ele, não fez nada, e foi o “espectador” que de mais perto assistiu ao golo. Quanto ao mérito, é todo de Rafael Lopes, que se aproximou de Rúben Semedo antes do cruzamento, depois recuou até Coates e, por fim, até Esgaio. Atrapalhou as marcações dos centrais do Sporting e escolheu por adversário o defesa que pior o faz.
Empatar, o Sporting só empataria perto do intervalo: 46′. Antes, e durante toda a primeira parte, tentou vezes e vezes sem contra, à direita ou à esquerda, encontrar com cruzamentos uma cabeça loura, um tanto calva, que é a de Bas Dost. Sem sucesso. Ora porque os laterais e centrais do Chaves não permitiam e cortavam tudo, ora porque os cruzamentos (sobretudo os de Esgaio e Bruno César; a propósito: laterais precisam-se em Alvalade) não chegavam lá. Por fim, e depois de tantas tentativas, Gelson cruzou desde a direita, um cruzamento longo, Bas Dost deu um passe atrás na pequena área e desviou nas costas de Ponck.
Era o 15.º golo esta temporada (em 25 jogos) para Bas Dost. Faria mais um na segunda parte — e disso tudo lhe contei logo no início. Mas saiu (talvez cedo de mais e quando o jogo continuava “partido”) e não voltaria a aumentar a sacada de golos que já leva. No final, mesmo no finalzinho — e depois do golo de Fábio Martins –, o Sporting bem tentou o que antes tentara: cruzar para a área, na esperança que alguém resolvesse o que se complicou. Coates é também ele um “pinheiro” e subiu até à área do Chaves. Mas não é Dost. André? Esse, nem goleador, nem “pinheiro”. E o Sporting desaproveitou o deslize do Benfica horas antes.

Benfica-Boavista. O empate por xeque perpétuo


Na iminência da derrota (3-0 aos 25 minutos, caso único na Luz para o campeonato), o Benfica dá um golpe de autoridade e chega ao empate aos 68'. Depois, o Boavista controla e evita o xeque-mate: 3-3





O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

Num prato de trigo tragam três tigres. Três tigres tragam trigo num prato dum trago. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato dum trago.
O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o ruidoso rei da Rússia.
– Raio! – ralhou o rei. – rato rapace!
– Raça! – rugiu o rato. – é rija a rolha!
Se passa os três níveis sem dar um nó cego à língua, está habilitado a continuar a ler. É uma tarde de sol, cheia de Luz. O estádio abre as portas e mais de 55 mil pessoas entram com a perspectiva de assistir à nona vitória seguida do Benfica. Nem pensar, discorda o Boavista, sem vencer na Luz desde Março 1999 (aquele mítico 3-0 de Ayew, Ayew e Luís Manuel na estreia promovida por Souness dos laterais Harkness e Charles), A equipa de Miguel Leal sai com a bola e impede o Benfica de fazer dois toques seguidos do meio-campo para a frente. Tanto assim é que o primeiro lance digno de registo é uma falta defensiva de Luisão, aos 5′. E o segundo é mais do mesmo, aos 7′. Só a partir dos 10′ é que o Benfica dá um ar da sua graça e encontra o caminho para a baliza de Kamran, com um remate de Samaris (titular tão-só pela segunda vez no campeonato 2016-17, após o 1-1 no Dragão) ao lado. No quadradinho seguinte, Rafa dribla por ali fora e serve Gonçalo Guedes, cujo pontapé mais em jeito do quem força sai também ao lado.
A partir daqui, o Boavista dá espectáculo. Ou melhor, Iuri Medeiros aparece em jogo: assina o 1-0 de livre directo (14′), assiste Lucas para o 2-0 aos 20′ e oferece o 3-0 a Shrembi aos 25′. Num piscar de olhos, o Boavista marca três golos em menos de meia-hora e faz história. Nunca uma equipa nacional conseguira tal feito na Luz – nas provas europeias, só o Manchester United para a Taça dos Campeões 1965-66. Nesses três golos, o 1-0 começa numa falta sobre Rafa não assinalada pelo árbitro Luís Ferreira e o 3-0 é irregular porque Shrembi tira partido do fora-de-jogo para encostar o passe altruísta de Iuri. Sempre ele, Iuri. O rapaz merece. Tem qualidade nos pés e cabeça, muita cabeça. Vai daí, marca o quarto golo da sua história ao Benfica (um pelo Arouca em 2014-15, dois pelo Moreirense em 2015-16 e agora pelo Boavista em 2016-17). O último português chama-se Gomes, Fernando Gomes. Um clássico dos anos 80. Iuri vira um clássico do século XXI.
Em desvantagem por 3-0, o Benfica continua sem encontrar o fio de jogo. Se a defesa é mole, o ataque é macio. Rui Vitória mexe aos 38 minutos e saca Rafa. Quem entra é Mitroglou e é precisamente ele quem assina o 3-1 antes do intervalo, na sequência de um passe de Salvio após defesa incompleta de Kamran a um pontapé de Pizzi de fora da área (o grego já é o melhor marcador do Benfica no campeonato, com sete golos, mais um que Pizzi). Um-três ao intervalo. Qual é o último na Luz, para o campeonato? Em Outubro 1959, com o Lusitano Évora. Surpresa das surpresas, o Benfica ganha esse jogo por 5-3. nas duas anteriores situações de 3-1 ao intervalo, o factor casa faz a diferença (4-3 ao Sporting em 1949 mais 5-3 ao Belenenses em 1935).
A segunda parte traz um Benfica ligeiramente diferente, com Cervi no lugar do capitão Luisão (quem leva a braçadeira é André Almeida). E é o argentino quem agita o Boavista, com a falta sofrida por Edu Machado de que resulta o 2-2 de Jonas, de penálti, aos 53′, e o cruzamento para o autogolo de cabeça de Fábio Espinho, aos 68′. Com mais de 20 minutos de jogo, o Benfica acredita na reviravolta. Só que Miguel Leal faz as suas substituições e a entrada do lateral-direito Mesquita trava o andamento de Cervi. Sem o turbo boost, o Benfica perde intensidade. O tempo passa e nada de bolas ao poste, à trave ou salvas na linha por Kamran. Aliás, é Ederson quem evita o 4-3 do Boavista em duas situações relâmpago, aos 80′ (Renato Santos) e 82′ (Anderson Carvalho). Quando Luís Ferreira apita para o fim, uma confusão imensa instala-se no meio-campo por obra e graça de um desentendimento entre Kamran e Jardel (suplente). É o sétimo 3-3 na Luz para o campeonato. Será que algum candidato ao título aproveita este brinde? É caso para desatar o nó com o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

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