sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O Homem que treina e ensina



São muitas as definições de um treinador. A de Cruyff soa perfeita do ponto de vista ideológico, orientada pela independência dos resultados: "Só há duas espécies: os que treinam e os que ensinam." César Menotti dá uma achega, acreditando que o talento do líder se mede pelo progresso dos seus jogadores: "Se um futebolista tem sempre as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, é porque não tem um bom treinador." Rui Vitória corresponde às duas definições, na qualidade de gestor e pedagogo de altíssima qualidade, que não choca com a realidade, adapta-se a ela; não luta por mudar as regras instituídas, trabalha para melhorar o que tem; não se propõe fazer revoluções, aperfeiçoa a orientação vigente.
Em apenas 16 meses, RV confirmou ser o treinador certo para a nova etapa na vida benfiquista. Integrou-se na máquina, imprimiu uma dinâmica, escolheu um estilo, definiu elos de ligação entre os vários sectores, defendeu princípios e indicou o caminho. Nas suas escolhas estão implícitas opções estéticas, um espírito de trabalho saudável e o respeito sagrado pela história do clube. Para tanto precisou de aproveitar as estrelas que já tinha e conduzir jovens com talento, mas sem experiência, ao patamar de excelência que reclamam; de lhes incutir uma atitude ofensiva e pugnar por um comportamento elegante, estimulando atitude congregadora e generosa capaz de levar a bola para o outro lado do campo, de preferência às redes adversárias.
O grande futebol constrói-se com sentimento e tradição. Todo o seu enlevo histórico e social é património de uma entidade coletiva alicerçada nos adeptos. RV tem mobilizado essas emoções profundas e misteriosas com resultados à altura mas também com ética irrepreensível. E tem-no feito com a imensa grandeza de um discurso aglutinador; com domínio perfeito da matéria e na ação focada apenas no laboratório que ampara o dia-a-dia do treino. Seguro de si próprio, recusa adornar a lenda que está a construir com caprichos, desplantes, provocações, insinuações maldosas, polémicas estéreis ou qualquer outra grosseria. Simplesmente assume o papel que lhe cabe como responsável de uma grande equipa e nunca se lamenta do que corre mal. É incrível como o Benfica lidera a Liga com 5 pontos de vantagem ao fim de 10 jornadas, depois de quase todos os jogadores do plantel terem passado pelo estaleiro.
No decorrer da época já teve os dois pontas-de-lança na enfermaria (Mitroglou e Jiménez); praticamente não contou com Jonas e Jardel; perdeu logo Rafa para várias semanas; abordou o clássico sem Fejsa e Grimaldo, e ainda ficou sem Luisão ao fim de um quarto de hora do jogo. Metáfora de toda a vigência de RV na Luz, o Benfica soube encontrar no Dragão argumentos para evitar a derrota ao soar do gongo. Não é legítimo exigir agora ao treinador encarnado que se automutile porque teve sorte, porque não agrediu quando teve azar; que agradeça aos deuses o milagre do empate e reconheça a dádiva divina diminuindo os méritos da sua equipa. Há um ano, perdeu com o FC Porto, naquele mesmo palco, com um golo de André André aos 86 minutos, e saiu derrotado, na Luz, de um jogo em que podia até ter goleado. O futebol é fértil nestas situações extremas.
RV é o timoneiro de nau a caminho da terra prometida, que tem passado pelas tormentas do alto-mar com a serenidade de quem se convenceu, transmitindo essa confiança à tripulação, de que nada nem ninguém pode impedir a expedição de chegar a porto seguro. Se vai ou não navegar até ao destino, é impossível sabê-lo nesta altura. Mas que estão todos convictos de que tal vai suceder, sente-se em cada palavra. Para acentuar a ideia de que sim, é possível lá chegar, até já saem íntegros e felizes de clássicos em que foram amplamente inferiores com um golo marcado aos 90’+2.
Joel Campbell cada vez melhor
Joel Campbell não se afirmou logo no Sporting de Jorge Jesus. Não se pode dizer, também, que tenha caído no goto dos adeptos, razão pela qual precisou de contar mais com o seu talento do que propriamente com a condescendência alheia. O costa-riquenho trocou o banco do Arsenal pelo que pensava ser um lugar no onze leonino. Está a jogar cada vez mais e melhor. Em 6 presenças na Liga marcou 3 golos.
Óliver explodiu com o Benfica
Óliver ainda não tinha confirmado a exaltação que marcou a primeira passagem pelo FC Porto. O jogo com coeficiente de dificuldade mais elevado serviu para o jovem espanhol se libertar e explanar todos os recursos técnicos do reportório. Foi deslumbrante frente ao Benfica e a ele deve o FC Porto muito do excelente futebol que exibiu no clássico. Com ele a grande nível, o dragão é muito mais forte.
Duas expulsões inexplicáveis
Marega perdeu a cabeça e, sem razão aparente, agrediu um adversário com uma estalada; Boateng marcou um golo e, indiferente ao cartão amarelo que vira cinco minutos antes, tirou a camisola nos festejos para anunciar que chegara a sua hora. Podemos teorizar à volta das motivações que levaram os dois jogadores a fazerem-se expulsar de um modo tão infantil. Mas nenhuma teria uma base futebolística.
Rui Dias no Jornal Record

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