sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Nuno a correr contra o tempo

VISÃO DE JOGO


O momento atual do FC Porto, com boas exibições e outras nem tanto, pode ser caracterizado por aquilo que apelidamos de "dores de crescimento". Com uma equipa em formação, a assimilar novas ideias e, em paralelo, apostando em vários jogadores jovens, Nuno Espírito Santo assume o risco de fazer evoluir a equipa (e os próprios jogadores, a nível individual) em plena competição. Um cenário que nem sempre é fácil de conciliar com a ambição e a habitual exigência dos adeptos portistas. Os dragões passam assim uma espécie de contrarrelógio na procura da sua consolidação.

Ao contrário dos rivais lisboetas, que já traziam um núcleo duro do ano anterior e os mesmos treinadores, os dragões reformularam o elenco e trouxeram novo timoneiro. Era inevitável que surgisse um período de ambientação aos princípios do treinador e seria necessário tempo para ganhar rotinas na nova dinâmica de jogo que este pretende implementar. No fundo, para chegar àquela situação de uma equipa que "joga quase de olhos fechados", independentemente das peças que entram, o FC Porto ainda caminha para lá chegar.

Isso explica em parte a bipolaridade exibicional a que vamos assistindo. Esta equipa tem dado bons indicadores, sobretudo no capítulo defensivo. Nos últimos 9 jogos sofreu apenas 2 golos (Brugge e Benfica). A defesa prima pela simplicidade e eficácia, sendo forte no jogo aéreo e na marcação. Neste aspeto, o consolidar da dupla de centrais, com Felipe (estreante no futebol europeu) e Marcano (muito criticado no ano passado), é um dos trabalhos bem conseguidos por Nuno Espírito Santo até ao momento. 

Por seu lado, nota-se que os dragões são uma equipa esforçada, que sabe pressionar e que tenta lutar com tudo. Mas isso não basta para ganhar sempre, é preciso mais. E aqui chegamos àquele que parece ser o principal problema da equipa: a finalização. Os dragões têm sido demasiado perdulários no último terço, face à quantidade de oportunidades que conseguem criar. Os golos é que contam no futebol e a equipa não tem tido produtividade e eficácia nesse capítulo essencial.

Se olharmos para o quarteto ofensivo dos dragões, ressalta logo à vista a juventude de André Silva (21 anos), Diogo Jota (19), Otávio (21) e Corona (23). São jogadores aguerridos e talentosos, com imenso potencial, mas que estão na idade certa para errar e poder crescer aprendendo com os próprios erros. E daí que, voltando ao início do que dizia, este FC Porto vê-se obrigado a crescer em plena competição, sendo que os adeptos, dentro da sua cultura de exigência, estão pouco dispostos a dar muito mais tempo para verem a máquina finalmente afinada.

Faltarão soluções no ataque, mais experientes, que pudessem apoiar, sobretudo na gestão do esforço, discernimento e leitura inteligente do jogo, estes jogadores mais jovens. Adrián Lopez não joga há 2 meses, Depoitre é uma incógnita e parece não encaixar na forma de jogar da equipa, Silvestre Varela voltou agora a ser opção e resta apenas Brahimi, um dos maiores ativos do clube, que esta época apenas jogou 197 minutos.

Seria bom que finalmente se esclarecesse a situação do argelino, um dos mais virtuosos jogadores do plantel, que podia ter sido muito útil em partidas onde a equipa não encontrou os caminhos da baliza. Se faz parte do plantel e está empenhado, deve ser opção e mais um para ajudar. Se não está de corpo e alma com a equipa, nem faz sentido que o convoquem e contem com ele. Esta gestão atual, seja qual for o motivo (opção técnica ou pretensões de saída), prejudica uma equipa à procura da sua melhor faceta.

Craque – Lateral a dar nas vistas
Portugal vive um momento histórico em que possui várias opções de qualidade para a sua lateral direita. De João Cancelo a Cédric Soares, há também Ricardo Pereira e Nélson Semedo. O jogador do Benfica parece ter conquistado o seu lugar na equipa titular encarnada. Excelente a transportar a bola pela faixa e a progredir no terreno para dar apoio aos colegas do ataque, é também eficiente a defender quando a equipa não tem a bola. Os bons jogos que tem realizado começam a dar nas vistas lá fora. Um valor seguro.

A Jogada – Qualidade no terceiro escalão
A edição deste ano da Taça de Portugal está a ser pródiga em surpresas. Além da eliminação precoce do FC Porto, merece destaque a qualidade do futebol presentado pelas equipas do terceiro escalão, o Campeonato de Portugal. Formações muito bem organizadas, a praticar um futebol competitivo e apresentando uma postura desinibida, sem receio de vencerem equipas com mais argumentos. Além disso, nota-se que está a surgir uma nova geração de treinadores, a dar os primeiros passos neste escalão, que poderá vir a dar que falar no futuro.

A Dúvida – Dilemas atuais
Quando uma equipa está bem, os erros de arbitragem (que vão sempre existir), acabam por não influenciar o seu rendimento, porque esta tem força anímica e capacidade técnica para encontrar os caminhos dos golos e das vitórias. Quando uma equipa se encontra em momento de menor fulgor, a influência desses erros já pode ter um maior peso, para o bem ou para o mal, a puxar para cima ou para baixo. Este é o cerne da questão. Algo mais gritante é o facto de vermos árbitros com critérios diferentes perante lances semelhantes. Que razões explicam esta dissonância?
António Oliveira no Jornal Record

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