quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Não se rendam ao “pântano” do futebol português



A
minha geração já não tem conserto. Penáltis, novelas do dirigismo, cuspidelas ou vaporizações, “colinhos”, vouchers, apito. São estas as palavras-chave das cogitações dos supostos “apreciadores de futebol” que se aproximam, por excesso ou defeito, da minha idade.
Gostam de futebol? Nem por isso. Gostam do seu clube. Não gostam dos adversários. Para alguns os rivais estavam bem era nos distritais ou até mesmo extintos, não percebendo, em toda a sua “aridez” intelectual, que sem rivais não há espectáculo.
A alimentá-los têm uma classe dirigente que, salvo raras excepções (curiosamente não identificáveis pela variável geracional), lhes oferecem o que eles querem: alarvidade. Depois ainda temos os “incendiários” dos painéis televisivos e colunas de jornal, onde os interessados em discutir futebol se encontram com a mesma frequência de um trevo de quatro folhas.
O futebol português nem sempre foi assim. Em tempos os senhores iam ao futebol de chapéu e gravata, também por cá como lá fora. Uma era de cavalheiros, durante a qual aquele que dissesse um palavrão diante de uma senhora ou criança se habilitava… Esses tempos já não voltam (e ainda bem, por outros motivos), mas tal não significa que o “pântano” em que se transformou o futebol português a partir dos anos 70 tenha de perdurar como algo incontornável e eterno, criado provavelmente pelos mesmíssimos motivos que trouxeram o país ao estado em que se encontra.
É muito raro abordarmos no GoalPoint outra coisa que não desempenho, números, curiosidades e factos relacionados com aquilo que parece menos interessar a muitos: o futebol. Aqui não há (nem haverá, enquanto formos os mesmos) espaço para a trica de dirigentes, para o vasculhar da vida pessoal dos protagonistas da bola, para o hiperbolizar do peso de algo tão natural como é o erro humano do apitonuma modalidade que teima em resistir à modernização.
Porquê? Porque não nos rendemos à dialéctica actual do futebol português. Sabemos que vende. Temos noção de que teríamos ainda maior alcance se, a meio de uma ou duas boas análises, surgisse um ou outro artigo mais pantanoso, à mistura com umas miúdas semi-nuas. Azar o nosso, mas por opção. Chegaremos ao destino com menor velocidade, mas chegaremos. E quando lá chegarmos será talvez o momento em que a cultura dos apreciadores de futebol terá evoluído em Portugal. E nós queremos liderar essa fase. E vamos fazê-lo.
A nossa esperança? Precisamente o perfil de leitor que nos procura: jovem, de idade ou de ideias, interessado em ver o futebol discutido e pensado noutros moldes, mais focados no espectáculo que representa e menos naquilo que nunca o devia ter caracterizado. E são cada vez mais. A todos eles, aos que chegaram e ainda vêm a caminho, deixamos um agradecimento, seguido de um pedido:
NÃO SE RENDAM. Não se se deixem levar pelo “pântano” que é o futebol português.
Não assistam a painéis e análises televisivas inacreditáveis, consumidos pela clubite, falta de classe (e de conhecimentos) e noção do ridículo apenas por interesse escatológico. As audiências não vos distinguem, mesmo que apenas consumam por gozo.
Não sigam as “cantigas” daqueles que vos tentam levar para a discussão de 90 minutos de futebol com centenas de acções de jogo para um apitar mal dado.
Não percam um segundo com polémicas de túneis e outros eventos deploráveis, através das quais os dirigentes que temos se mantêm e vos mantêm alienados do que realmente interessa, o futebol jogado.
Digam não a isso tudo e apoiem quem vos quer acompanhar na verdadeira “limpeza” do futebol português, não só o GoalPoint mas qualquer projecto que encontrem que assuma essa bandeira. Porque, em última instância, não tenham dúvidas: o futebol que temos é culpa nossa, dos adeptos. E apenas os adeptos o podem limpar. Mudemos o nosso comportamento de consumo, apoio e debate hoje, se queremos um futebol melhor amanhã.
Se concorda com este apelo partilhe-o com todos aqueles que quer convidar à reflexão e acção. Tome nas suas mãos a limpeza do “pântano”.
Pedro Cunha Ferreira
Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting. É um dos fundadores da GoalPoint Partners.

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