terça-feira, 25 de outubro de 2016

Afinal, não era assim tão complicado…



1 - Faz amanhã um mês, escrevi aqui um artigo significativamente intitulado Treinador da bancada. Nele, louvando-me da única valia de cinquenta anos a ver consistentemente futebol e a seguir ao milímetro tudo o que toca ao meu querido FC Porto, permitia-me a ousadia de dar a Nuno Espírito Santo, não propriamente conselhos, mas apenas a minha opinião, em aspectos colectivos e individuais da equipa que a mim me pareciam poder melhorar de imediato o seu desempenho. Mas, tal como escrevi, «não com a esperança de ser escutado, mas apenas para memória futura». Ora, decorrido um mês e certamente por coincidência, constato que, passo a passo, quase tudo o que preconizei acabou por ser levado à práctica por Nuno Espírito Santo. Coincidência ou não, fico muito feliz por isso - não por ver as minhas ideias terem vencimento, mas por ver como elas melhoraram substancialmente o desempenho da equipa. Não vou cobrar direitos de autor nem honorários de aconselhamento técnico por isso. Fico feliz por Nuno Espírito Santo ter emendado a mão que estava errada e é óbvio que mudou, não por mim, mas por ele. E a contento de todos os portistas, estou certo.

A primeira coisa que então escrevi é que NES não iria a lado algum com a sua teimosia no 4x4x2, em lugar do histórico 4x3x3 em que o FC Porto joga há anos sem fim (embora reconhecendo que ele próprio prejudicara tal esquema ao prescindir na pré-época de jogadores essenciais para o 4x3x3). Pois bem, foi a mudança táctica operada após uma hora de jogo em Bruges, em que o 4x4x2 inicial se revelou, uma vez mais, um absoluto deserto de ideias e capacidade rompedora - face a uma equipa menor e para mais desfalcada de sete titulares - que permitiu a meia hora final em que tudo mudou e se conseguiu dar a volta a uma derrota que teria sido mortal e humilhante. 

A entrada em cena de Corona e Brahimi, dois extremos de origem, abriu imediatamente o jogo do FC Porto e rasgou avenidas onde antes só se viam becos sem saída. E sábado passado, frente ao Arouca (talvez o jogo mais conseguido do FC Porto esta época), a opção de início pelo 4x3x3, com Corona a habitar um dos flancos, permitiu enfim ver um jogo de ataque constante, escorreito e pleno de oportunidades.

Depois, nos aspectos individuais, escrevi que, fosse em prejuízo de Maxi ou mesmo de Alex Telles, jamais se poderia prescindir de Miguel Layún - apenas o melhor jogador da equipa. Felizmente, NES resistiu à tentação que já antes tinha tido, deixou Layún no onze... e os resultados estão à vista. Escrevi que Marcano era intocável no centro da defesa e ele aí está a confirmá-lo, jogo após jogo. Reforcei o que já antes tinha dito, que Otávio é o maior desequilibrador da equipa e que só razões incompreensíveis fizeram com que Peseiro o tenha deixado toda a época passada a servir o Guimarães, em lugar de estar no Dragão. 

Escrevi que o André André andava a jogar a passo e que lhe faria bem umas semanas de férias, e ele, de facto, saiu da equipa, com vantagens evidentes. Escrevi que Corona é um excelente jogador (aquela bola no poste contra o Arouca, teria dado um golo de correr mundo!) e que era um desperdício inexplicável mantê-lo de fora apenas para insistir no 4x4x2: viu-se, contra o Arouca e em Bruges, que tinha razão. Dei conta da minha fé de que nem Depoitre nem Adrián López traziam o que quer que fosse à equipa, e eles, felizmente, desapareceram, com evidentes benefícios. Enfim, escrevi que NES devia acautelar-se com a impetuosidade e consequente perigosidade do jogo de Felipe, explicar a Danilo que não podia jogar só para trás e para os lados, e desconfiar de Herrera. Felipe continua a cometer os mesmos erros de entrada aos lances, ocasionando livres perigosos e inúteis; Danilo passou ultimamente a olhar para a frente e todo o centro do meio-campo alargou horizontes; e Herrera lá continua no seu registo habitual: um jogo bom, cinco jogos de mediocridade total (em Bruges chegou a ser irritante).

Não sei se tudo isto é para durar ou não. Sei que os treinadores são muito teimosos e que, mesmo contra factos e evidências, gostam de insistir uma e outra vez em soluções erradas na esperança de conseguirem provar que têm razão contra o mundo. Espero bem que não: embora o horizonte esteja agora um pouco mais desanuviado, seria trágico voltar atrás. Já pagámos o preço suficiente pelas ideias erradas ou erráticas de Nuno Espírito Santo. 

2 - A fome de futebol a sério era tanta, que eu não perdi os jogos dos outros dois, Benfica e Sporting, quer na Champions, quer na Liga. Vi um Sporting estranho, abúlico, sem condição física, sem ideias nem rasgo, em que a ausência única de Adrien não consegue tudo justificar. Para uma equipa cujos dirigentes e adeptos nos juravam jogar o melhor futebol de Portugal, aquilo está mal, está mesmo mal - e espero que assim continue. No final do miserável jogo contra o Tondela, lá estava (sinal de desespero) o trio infernal - Bruno de Carvalho, Jesus, Octávio - a assediar o árbitro, tentando passar-lhe as culpas do fiasco, como habitualmente. Mas de que se queixariam eles - de uma arbitragem sempre ao sabor das exigências da bancada, dos cartões vermelhos perdoados a William e Bruno César (os suspeitos do costume), ou dos 6 minutos de descontos que permitiram o empate?

Já o Benfica de Rui Vitória é um caso sério. Dezasseis vitórias consecutivas fora de casa para a Liga é um caso sério. Mais sério ainda, porque nenhuma delas é acompanhada por grandes exibições, mas apenas por uma terrível eficácia atacante, um notável aproveitamento das bolas paradas e um killer instinct do momento certo para matar os jogos, seja no início, no meio ou no fim.

Preocupa-me sobretudo a sensação de que voltámos ao tempo em que as camisolas do Benfica jogavam por si mesmas, bastando-lhes entrar em campo para logo aterrorizar os adversários. Nem todos, claro: a última derrota do Benfica para o campeonato foi contra o FC Porto, na Luz. Aliás, no ano passado, perdeu na Luz e no Dragão, mas isso de nada nos serviu. Confio que, dentro em breve, iremos interromper a longa série invicta do Benfica. Mas tal não basta: olhando para a forma como eles ultrapassam todos os outros adversários, com facilidade ou com eficácia, só nos resta uma solução para sermos campeões, que é fazer igual. E se pensarmos, enfim, que o Benfica vai três pontos à nossa frente tendo tido de enfrentar uma longa série de ausências de titulares, só podemos concluir também que estamos perante um adversário muito bem orientado pelo seu treinador. Rui Vitória é um adversário muito perigoso: é concentrado, é humilde, não fala futebolês e não complica o jogo com tiques de personalidade. 

3 - No seu regresso a Stamford Bridge com o United, Mourinho levou quatro secos (ou quatro socos) da sua antiga equipa. No final, atribuiu as culpas aos «erros individuais» dos jogadores – os quais escolheu e comprou gastando dinheiro como ninguém mais no planeta futebol. Guardiola também foi humilhado em Camp Nou pela sua antiga equipa e no regresso empatou em casa com o Southampton. Mas, quando lhe perguntaram se a explicação eram erros individuais, ele respondeu: «Não, seria fácil para um treinador justificar-se com isso. O problema está na equipa e eu é que vou ter de descobrir qual é.» Mas há outra diferença: Guardiola está na Champions, onde vai seguramente garantir a passagem aos oitavos, e o seu City ocupa ainda o primeiro lugar da Liga; mas o United de Mourinho está na Liga Europa e no sétimo lugar da Liga inglesa. Este fim-de-semana, defrontam-se ambos em Old Trafford.
Miguel Sousa Tavares no Jornal « A Bola»
Sublinhados da minha responsabilidade.

3 comentários:

Valdemar Iglésias disse...

Desonesto.

Vindo de um adepto de um clube que justificou todas as derrotas recentes do FC Porto contra o Sporting com arbitragem.

E significativo que o autor do blogue, benfiquista, sublinhe as passagens que dizem respeito a críticas ao Sporting.

As nádegas voltam a abraçar-se.

Valdemar Iglésias disse...

Gostaria de perguntar se se leu ou escutou de algum dirigente leonino críticas à arbitragem no final dos jogos, como ouvimos de Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira ou os emissários ao seu serviço nas televisões quando a equipa não mostrou futebol em campo.

Se sim, por favor, uma citação ou referência.

Até lá, arranjem uma espinha dorsal, nádegas.

César João disse...

Caro Valdemar,

em relação ao seu primeiro comentário: sejamos sérios, não sublinhei também:Confio que, dentro em breve, iremos interromper a longa série invicta do Benfica.

em relação ao seu segundo comentário: só pode estar a brincar, desde que Jesus e Bruno Carvalho juntaram 'as nádegas' é o que mais fizeram, falar de arbitragem. E, não foram só eles,...Octávio, Inácio e tudo o que andava por lá perto. Fartaram-se de falar e insinuar.