quarta-feira, 29 de junho de 2016

A MINHA BANHADA EM MARSELHA

Aconteceu num sábado, quando o mistral era uma evidência a varrer a Cote d’Azur. Em Marselha, no velho Velódrome, Portugal perdeu com a França por 3-2, já no prolongamento. Eu estava lá, ao serviço da Gazeta dos Desportos. No dia anterior, lembro-me bem, apesar de tudo ter ocorrido há 32 anos, aproveitei a 'folga' para fazer um mini-cruzeiro ao arquipélago do Frioul, um conjunto de pequenas ilhas ao largo de Marselha. Lembro-me bem porque o capitão do barco, à saída do Vieux Port, aconselhou os passageiros a abandonarem a zona da proa e a recolherem ao interior. Fui o único que fez ouvidos moucos e não tardou nada até estar encharcado até aos ossos com a água já quente do Mediterrâneo. Foi um banho que soube bem, depois de longas jornadas a seguir 'Os Patrícios'. Primeiro em Estrasburgo, onde empatamos com a Alemanha, depois em Marselha, onde vencemos a Espanha, e a seguir em Nantes, onde vencemos a Roménia com um golo de Nené a qualificar-nos para a meia-final. Graças a este golo de um jogador que estava a viver na sombra de Jordão e Manuel Fernandes, e com quem tinha feito uma mini-entrevista antes desta partida com a Roménia, tive um dos grandes furos da minha carreira – no fim, o senhor Tamagnini, o tal que não sujava os calções, fechou a boca a todos os jornalistas e disse que só falava com o miúdo da Gazeta, o único que se tinha lembrado dele quando ninguém falava de Nené. Fiquei tão nervoso que depois não percebi os gatafunhos que tinha vertido para o bloco de notas.
A campanha de Portugal no Euro 84 teve um protagonista: Fernando Chalana. Tive a sorte de rapidamente me fazer amigo da sua então companheira, Anabela. Ela foi como que apadrinhada pela esposa de José Neves de Sousa e a partir do meio da campanha passou muito tempo com ela e, por consequência, também com o grupo de jornalistas portugueses que acompanhavam a seleção. O que vos posso dizer é que, através da Anabela, sabíamos tudo o que se passava com a seleção. Não fossem alguns de nós e a dado momento Chalana teria mesmo abandonado o estágio, tal era o seu desconforto e tantas eram as saudades de Anabela. Os responsáveis da seleção fizeram tudo para que o casal não mantivesse contactos mas a verdade é que Chalana sempre que podia descobria um telefone e passava horas à conversa com a sua apaixonada.
Lembro-me também bem da segunda viagem para Marselha. O presidente da FPF, Silva Resende, fez questão de me chamar para a frente do avião, sentando-me ao seu lado. Com algumas 'Gazetas' na mão, o antigo jornalista de A Bola deu-me uma sabatina, incomodado com as inconfidências do repórter, na altura sem qualquer tipo de filtro (situação que tentou até hoje manter, nem sempre com sucesso). Quando o avião finalmente aterrou, ouviu-se um suspiro de alívio. Compreendam também aqui a frescura do banho do dia seguinte, a caminho das Frioul.
Para não vos maçar mais, apenas recordo que no dia do jogo comprei umas meias brancas com as bandeiras das equipas que participavam no Euro. Para dar sorte. Do jogo recordo a sensação agridoce e o mistral que batia as bancadas, os emigrantes portugueses em lágrimas e aquela sensação de que tínhamos perdido a nossa grande oportunidade de levantar o caneco.
Foi uma jornada, apesar de tudo, gloriosa. O facto de ter na altura apenas 22 anos também ajudou muito. Hoje não sei se seria capaz de troçar do aviso do capitão do barco.
Eugénio Queirós no Jornal Record

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