domingo, 27 de dezembro de 2015

FC PORTO OU BENFICA: QUEM REALIZOU O MELHOR NEGÓCIO?

Gigantes venderam direitos de TV por centenas de milhões de euros à MEO e NOS


Depois do Benfica, o FC Porto. Dois grandes do futebol português que venderam os direitos televisivos dos seus jogos - num pacote que engloba outras valias, distintas de emblema para emblema - para a próxima década por valores bem acima daquilo que vinha sendo a realidade do futebol português neste ramo. Primeiro foram os encarnados a anunciar o acordo com a NOS por 400 milhões, seguindo-se os dragões, que fecharam oficialmente esta madrugada com a MEO por 457 milhões.

A questão não demorou a surgir: afinal, quem realizou um contrato melhor? O Benfica, recorde-se, vendeu à NOS os seus direitos televisivos e ainda a distribuição da BTV pelas tais quatro centenas de milhões de euros; o FC Porto engloba no seu entendimento com a PT/Altice também os direitos dos seus jogos caseiros na Liga (a partir de 2018), juntando-lhes os direitos de transmissão do Porto Canal (pelo período de 12 épocas e meio, com início em janeiro) e de exploração comercial dos espaços publicitários do Estádio do Dragão, para além da MEO se tornar novamente no principal patrocinador dos portistas, surgindo na parte frontal das camisolas da formação principal.


O patrocínio nas camisolas e a exploração dos espaços publicitários do Dragão parecem ser, assim, o grande fator que diferencia os dois acordos e que terá elevado para patamares superiores a verba que o FC Porto vai encaixar até 2028, como referiu o colunista Record Nuno Santos. "Esses dados inflacionam o valor (...) Com os dados disponíveis, os contratos estão equiparados, ainda que o do Benfica pareça melhor estruturado", indicou. Há que referir, porém, que os encarnados recebem uma verba - não oficializada - entre os 8 a 10 milhões/época pelo patrocínio na camisola mas através da Emirates e não da NOS, num contrato de três anos que expira em 2018. Se o mesmo fosse prolongado por 10 anos, à proporção a verba ascenderia a um mínimo de 80 milhões, fazendo com que o Benfica encaixasse 480 milhões, superior ao FC Porto. Um exerício, digamos, perverso, pela quantidade de "se's". Facto é que os dragões recebem mais da MEO do que o Benfica da NOS mas contam igualmente com um pacote mais vasto, com outras valências.

Refira-se ainda que, ao contrário do sucedido com o Benfica, que divulgou quanto vale cada um dos pontos (75 por cento dos 400 milhões correspondem aos direitos televisivos e 25 por cento à distribuição da BTV), no caso do FC Porto a divisão não é ainda conhecida.
Risco para o futuro?

Tanto Nuno Santos como Octávio Ribeiro, diretor do Correio da Manhã e da CM TV, alertaram para o risco de contratos com tão longa duração poderem comprometer o futuro, numa altura de transformações quase diárias. "Parece-me que as necessidades do presente podem estar a comprometer o futuro", afirmou Octávio Ribeiro. Paulo Ferreira, antigo diretor de informação da RTP, destaca precisamente o oposto: "São bons negócios para os dois, porque geram certezas nas receitas do clubes, ao longo de 10 anos."
E o Sporting?

Depois de Benfica e FC Porto, falta apenas o Sporting dar o passo em frente e fazer subir os valores que atualmente arrecada através do acordo com a Olivedesportos, inferior a 20 milhões/temporada. Estarão agora os leões mais pressionados ou poderão usar os valores dos rivais como trunfo numa futura negociação? "O Sporting tem agora uma legitimidade acrescida mas, por contraditório que pareça, é o elo mas fraco da cadeia porque dos três é o único que ainda não resolveu o tema", referiu Nuno Santos. Paulo Ferreira recorda o efeito em cadeia que muitas vezes é inerente a casos deste tipo: "Há muito esta lógica no futebol: o que acontece com um dos grandes deve acontecer com os outros dois. Há um pouco a ideia de obrigação moral da MEO ou da NOS de fechar contrato também com o Sporting."
PERGUNTAS E RESPOSTAS

1 - Quem assinou um contrato mais vantajoso?

2 - Sporting fica com legitimidade para, em futura negociação, pedir verbas semelhantes?


NUNO SANTOS (jornalista e ex-diretor de programas da SIC e ex-diretor de informação da RTP)

1 - Com os dados disponíveis, os contratos estão equiparados, ainda que o do Benfica pareça melhor estruturado. O do FC Porto envolve também o da publicidade nas camisolas e a publicidade estática e esses dados inflacionam o valor. Mas, repito, é cedo. A grande questão é onde estarão os jogos do FC Porto em 2018. E nestes dois anos o alinhamento da oferta televisiva pode mudar, desde logo no custo para o consumidor. Os clubes parecem ter resolvido o problema e nos próximos anos resolveram, mas tenho sérias dúvidas sobre contratos tão longos num tempo de tantas transformações no acesso aos conteúdos.

2 - O Sporting tem agora uma legitimidade acrescida mas, por contraditório que pareça, é o elo mas fraco da cadeia porque dos três é o único que ainda não resolveu o tema. E, das duas um: ou beneficia da guerra NOS/MEO, está já a negociar a alto nível e anuncia um grande acordo nos próximos dias, ou pode ter dificuldades. É um caso a seguir com atenção.


OCTÁVIO RIBEIRO (diretor da CM TV)

1 - São ambos aparentemente bons, mas digo aparentemente porque ao final de três anos ninguém sabe como estará o Mundo. É sempre um risco firmar contratos acima de três anos. Parece-me que as necessidades do presente podem estar a comprometer o futuro.

2 - O Benfica tem do passado e de um presente mais recente um lastro que o FC Porto também tem. O Sporting está ligeiramente abaixo disso. Se pensarmos enquanto marcais globais, Benfica e FC Porto estão ligeiramente acima de Sporting. No entanto, as três marcas estão pessimamente trabalhadas a nível global e estão muito abaixo da performance desportiva.





PAULO FERREIRA (ex-diretor de informação da RTP e jornalista/colunista do Observador)

1 - É difícil dizer sem conhecer todos os detalhes e sem fazer contas detalhadas. Até porque o perímetro do negócio do FC Porto é mais alargado. Inclui mais fontes de receita no negócio com a MEO do que aquelas que o Benfica passou para a NOS. Mas são bons negócios para os dois, porque geram certezas nas receitas do clubes, ao longo de 10 anos. O negócio dos direitos televisivos está em grande aceleração e grande mudança, não se sabendo que rumo vai ter mas, assim, os clubes asseguram à partida uma grande estabilidade de receitas.

2 - Há muito esta lógica no futebol: o que acontece com um dos grandes deve acontecer com os outros dois. Há um pouco a ideia de obrigação moral da MEO ou da NOS de fechar contrato também com o Sporting. São clubes diferentes, que movem multidões diferentes. Depende muito do que são as contas do Sporting, que tem de olhar para a sua marca. Se para Benfica e FC Porto são negócios vantajosos, para o Sporting também o seria, seguramente. A ambição de qualquer presidente é fazer um negócio deste tipo. Os operadores vão querer cada vez mais garantir conteúdos destes. É legítimo que o Sporting aspire a fechar um contrato semelhante.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

JESUALDO: «MUDANÇA DE JESUS FOI QUASE UM GOLPE DE ESTADO»

Aqui vos deixo uma entrevista do Prof. Jesualdo Ferreira a António Bernardino do Jornal Record

Mesmo no Qatar sem perder de vista o futebol português

Foto: Pedro Ferreira
Depois de se sagrar campeão nacional e vencer a Taça do Egito com o Zamalek, Jesualdo Ferreira rumou ao Al Sadd, clube mais importante do Qatar, mas sem perder de vista o futebol português.

RECORD - Trabalha no estrangeiro há quase um ano, entre a passagem pelo Zamalek (Egito) e agora a nova aventura no Al Sadd (Qatar), e ainda assim não perdeu a ligação àquilo que se passa no futebol português. Como é que tem visto esta época em Portugal?


JESUALDO FERREIRA – É um facto que não tenho seguido com muita atenção, porque para estar muito documentado tinha de estar sempre agarrado ao computador. Contudo, a verdade é que o Sporting arrancou muito bem, de uma forma que foi quase um golpe de Estado. Aconteceu quase um golpe de Estado no país, com a mudança do Jorge Jesus para o Sporting. Trata-se de uma equipa que está em cima, que foi crescendo nos últimos tês anos…
R - Por falar em Jorge Jesus, surpreendeu-o a entrada de Jorge Jesus no Sporting?

JF - Acho que surpreendeu toda a gente. Aliás, não sei se não o terá surpreendido até a ele. Mas, na verdade, não ficou no Benfica porque uma das partes não quis, ou as duas não quiseram. Assim sendo, por que razão não deveria ir para o Sporting? Acaba por ser um processo natural.
R - Referiu que o Sporting atual está a usufruir do trabalho realizado nos últimos três anos. Acha que também contribuiu, de alguma forma, para esse crescimento, com o trabalho que realizou em Alvalade?

JF - Acho que sim, que também contribuí para esse crescimento. Já que ninguém o disse, digo eu: acho que fui capaz de ter a coragem de reformular as questões e trabalhar com alguns jogadores, o que não era fácil. Mas, ao mesmo tempo, foi um gozo tremendo ver aqueles rapazes crescerem, competir ao nível que fizeram na fase final, e deixar tudo em bom estado, com capacidade para poderem continuar. O Jardim, a seguir, foi o grande impulsionador dessa equipa, o Marco continuou-o, com um triunfo na Taça, e agora chegou o Jesus, que ganhou uma Supertaça e está na luta pelo campeonato. Nada é por acaso, as coisas nascem sempre de alguma coisa, que faz crescer um projeto e uma equipa, como há também momentos em que as derruba.

"Já que ninguém o disse, digo eu: acho que contribuí para o crescimento do Sporting"




R - Pela forma como fala, pode depreender-se que a passagem pelo Sporting não lhe deixou qualquer tipo de arrependimento, independentemente de não ter alcançado os objetivos?

JF - Muito pelo contrário, foi um grande prazer trabalhar no Sporting, adorei estar ali, tenho pelos seus sócios e adeptos uma consideração tremenda. O Sporting é realmente um clube especial, eu ouvia falar nisso mas não entendia bem como é que um clube pode ser especial perdendo tantas vezes. Mas a história do futebol do Sporting e a forma como as pessoas o sentem deram-me uma ideia clara de um clube diferente, de um clube de quem se gosta quando se passa por lá.
R - Jesualdo Ferreira entrou no clube com Godinho Lopes e saiu com Bruno de Carvalho. Essa mudança, que depois acabou com a sua saída no final da época, foi um processo difícil?

JF - Não, porque as regras estavam bem claras desde o início. Havia no meu contrato uma cláusula que, se o engenheiro Godinho Lopes não ganhasse as eleições, eu colocaria o meu lugar à disposição de quem entrasse, e foi isso que fiz com o presidente Bruno de Carvalho. A equipa depois seguiu até ao final da época, para terminar o trabalho que vinha sendo desenvolvido, e depois saí porque, na realidade, achava que já não havia mais condições para trabalhar.

JESUALDO:

«TREINAR XAVI É UM PRAZER»

Técnico em exclusivo a Record

Foto: Pedro Ferreira
RECORD - Depois de ser campeão e vencer a Taça no Egito, pelo Zamalek, inicia agora uma nova etapa na carreira ao serviço do Al Sadd, no Qatar. O que o motivou a aceitar este desafio?

JESUALDO FERREIRA – O nosso presidente, um dos líderes da Fundação Aspire e de tudo aquilo que diz respeito à organização do Mundial, foi muito claro, falando da importância de partilharmos com ele a nossa experiência. Obviamente, vindo eu treinar o Al Sadd, que ele dirige, a melhor equipa do Qatar, a mais titulada, percebemos que existe uma tentativa de partilhar conhecimentos.

R - O Qatar tem uma enorme comunidade egípcia, e isso permitiu-nos constatar a adoração que os egípcios, sejam do Zamalek ou do Al Ahly, têm por si [durante duas horas, o técnico foi abordado mais de 30 vezes]. É um troféu que não consta nas galerias, mas que fica gravado na memória...

JF – Sem dúvida; aliás, essa é uma expressão muito feliz. Se falar com o Manuel José, ele vai dizer-lhe o mesmo. Aquilo que vivi no Zamalek nunca vivi antes, e provavelmente não voltarei a viver. A paixão foi aumentando, cresceu com a forma como o Zamalek venceu o seu rival. Há 11 anos que não vencia o campeonato, e não venci há 8 ou 9 anos o Al Ahly. Esse reconhecimento, no Egito, envaideceu-me emocionalmente. E quando chego aqui ao Qatar, onde dizem que há uma colónia de 200 mil egípcios, é permanente as pessoas aproximarem-se e agradecerem-me. Estão dentro do meu coração como um troféu muito grande, é o reconhecimento que tive fora do meu país.

R - Durante o seu trajeto trabalhou com jogadores como Zidane, Lizarazou, Dugarry, Falcão, Lucho González, Hulk, Quaresma, entre outros. Agora chega ao Al Sadd e encontra um profissional que é uma espécie de monumento do futebol mundial. Como é trabalhar com Xavi?

JF – Jogadores como o Xavi não há muitos no mundo do futebol. São aqueles que são capazes de ser campeões quando começam, e o Xavi foi campeão do Mundo na Nigéria, em sub-20, num Mundial onde eu estive com Portugal. Nessa altura Xavi já era um campeão, ao longo da carreira sempre foi, e aqui continua igual. Esses são os grandes. Há alguns exemplos no Mundo, em Portugal tivemos o Figo, o Eusébio, e penso que o Cristiano Ronaldo vai ser igual. Este Xavi é um prazer, não se dá conta que está ali um homem que ganhou tudo o que havia para ganhar, está aqui e quer ganhar este campeonato. Aliás, a nossa conversa inicial foi essa: "Tu que ganhaste tudo, não me digas que não queres ganhar aqui também?", e ele respondeu-me: "Míster, eu quero ganhar aqui." É o primeiro a chegar aos treinos, está sempre na frente nos exercícios, e joga como vocês sabem e viram. Tem sempre uma posição extremamente positiva em relação a tudo, ao treino, aos jogos, aos colegas, aos adversários. É um senhor do futebol, e é um grande prazer, no fim da carreira dele e provavelmente no fim da minha, ter a oportunidade privar como uma personalidade destas.

R - A sua chegada ao Al Sadd foi uma lufada de ar fresco para um jogador, Xavi, habituado a níveis de profissionalismo elevados e que encontrou outra realidade?

JF – Nós sentimos isso. É curioso que a única coisa que ele disse foi: "Míster, organize isto, porque organizando vamos fazer coisas boas." No meio do grupo de trabalho ninguém está a jogar com o Xavi, estão a jogar com mais um, só que esse mais um é o líder natural. Eu já tinha essa ideia dele, quando o via jogar, mas a forma como saiu do Barcelona, a festa que lhe fizeram, reforçou a ideia. Aquilo que vos digo agora, direi quando sair, porque não acredito que este Xavi Hernández mude o seu comportamento.


JESUALDO:

«MOMENTO ATUAL PODE BENEFICIAR FC PORTO No CLÁSSICO»


Foto: Pedro Ferreira
R - Estando na presença de um treinador que orientou Sporting e FC Porto, não podemos deixar de lhe perguntar como perspetiva o clássico do próximo dia 2, em Alvalade?
JF – Nos anos em que estive no FC Porto, o Sporting foi sempre o nosso adversário mais direto, curiosamente. Contudo, um FC Porto-Benfica tem sempre uma dimensão emocional que não têm um FC Porto-Sporting. Por tradição, o FC Porto joga tranquilo em Alvalade. Além disso, hoje em dia a maior parte dos jogadores do FC Porto não sabem nada do que é um Sporting-FC Porto. Acho que este Sporting-FC Porto vai ser apenas influenciado pela capacidade que as duas equipas vão ter naquele momento.R - Nessa ordem de ideias, a maior experiência que Jorge Jesus tem do futebol português, em relação a Julen Lopetegui, pode ser uma vantagem?

JF - Acho que sim. Além disso, os jogadores do Sporting já lá estão há alguns anos, alguns sabem da história. Mas neste momento, depois da derrota na Taça de Portugal e de perder o primeiro lugar no campeonato, está numa fase em que a condição anímica não é a melhor. Contudo, o FC Porto, apesar de estar agora em primeiro, também vem de uma eliminação na Liga dos Campeões, e no FC Porto a influência da saída da Liga dos Campeões em plena fase de grupos tem muito peso. O FC Porto tem sempre dois objetivos traçados: ser campeão e passar aos oitavos-de-final da Champions. Está instituído. Curiosamente, eu vivi esses oito projetos e alcancei sete, só uma vez não consegui alcançar esses objetivos. Naquele clube isso é fundamental. Enfim, se o Sporting tivesse mantido a liderança até ao clássico, podia estar um pouco por cima; contudo, estes últimos jogos mudaram um pouco as coisas, o momento atual poderá beneficiar o FC Porto neste clássico. Contudo, num jogo como um clássico as previsões nunca são infalíveis.
R - Consegue olhar para as duas equipas e encontrar figuras que possa ser importantes neste clássico?

JF - Olhe, assim de repente vem-me à cabeça o Rúben Neves… Esse miúdo... olho para ele a jogar e consigo identificar que estamos na presença de um jogador à Porto, tem muita qualidade. O André André também é um jogador à FC Porto; o Brahimi tem grande talento, pode fazer a diferença na equipa. A verdade é que o FC Porto e o Sporting estão afastados por apenas dois pontos, o que significa que, à partida, será um jogo equilibrado. Já no Sporting temos jogadores novos, mas com experiência. Aquele Bryan Ruiz tem alguma coisa mais em relação a todos os outros. Não é que seja melhor ou pior, não é isso que pretendo dizer, mas tem, seguramente, qualquer coisa de diferente. Depois há o Jesus, que chegou e veio trazer ao Sporting aquilo que faltava, mais dinâmica, mais intensidade.

JESUALDO:

«RUI VITÓRIA TEM UM TRABALHO DIFÍCIL»


Foto: Pedro Ferreira
R - Rui Vitória tem um trabalho difícil pela frente, tendo em conta a mudança de paradigma de um clube como o Benfica e a herança de uma equipa bicampeã nacional?

JF - É um trabalho muito difícil. Aqui e ali as coisas não estão a correr muito bem, mas sabe uma coisa? Acho que ele está a conseguir. Também me parece que se está a dar excessivo mediatismo a alguns miúdos que vão aparecendo, que fazem três ou quatro jogos e já estão em patamares muito elevados. Isso é perigoso, porque deve entender-se que subir é fácil, ficar lá é que é complicado. Mas também isso é uma conquista do tempo atual, é tudo muito depressa. O clube tem de controlar bem isso, caso contrário não vão ganhar-se tantos jogadores. Mas é um risco assumido, uma aposta do clube, e nesse sentido o Rui Vitória tem uma fatura bem mais pesada na mão do que o Jorge Jesus.*
R - Ao serviço do FC Porto ganhou o tricampeonato. Sentiu nessa fase que não lhe foi dado o devido mérito a nível mediático?
JF – Tenho essa noção. Enquanto treinador do FC Porto, ou jogadores do FC Porto, tivemos sempre a noção que a partir do momento em que as coisas batessem no teto, um teto baixo, nada podia remover essa placa. O Benfica não tem responsabilidade nisso, tem é a sua história e o país. No FC Porto tive jogadores que me disseram: "Míster, chega, não posso estar mais aqui, não vou mais para cima, faça o que fizer. A partir de agora vou ser sempre o mesmo, não há mais reconhecimento para além disto." Em relação a mim, depois de sair do FC Porto, parece que as coisas acabaram, há aquela velha ideia de que no FC Porto qualquer treinador ganha, isso não é verdade. Aliás, está a ver-se. Há mais possibilidades, como há no Benfica e como agora começa a existir no Sporting. Quando se consegue encontrar o rumo e o caminho, como se vê agora, os adeptos são fantásticos. Eu quando ganhava um campeonato no FC Porto, sabia que o meu conta-quilómetros ficava a zero, tal o nível de exigência que existe no clube. Como profissional, e digo-o sem qualquer tipo de problemas, o êxito ou fracasso que se alcança no Benfica, ou no Sporting, tem maior expressão, é tratado de outra forma que no FC Porto. Mas atenção, isso acontece para o bem e para o mal.

JESUALDO:

«DIER VAI SER UM SENHOR NO FUTEBOL»

Deixa elogios ao antigo jogador


Foto: Pedro Ferreira

Depois de se sagrar campeão nacional e vencer a Taça do Egito com o Zamalek, Jesualdo Ferreira rumou ao Al Sadd, clube mais importante do Qatar, mas sem perder de vista o futebol português. Entrevista em exclusivo a Record.
Record - Foi o primeiro treinador a colocar Eric Dier a jogar a médio, logo num jogo com o FC Porto. Vê-lo chegar à Seleção inglesa, e a jogar como médio no Tottenham, dá-lhe algum prazer especial?


Jesualdo Ferreira -Claro que dá! Aliás, já me disseram que eu fui capaz de ver uma coisa que era óbvia. Não sei se era óbvia ou não, mas foi essa a minha ideia, a minha convicção, e estou muito feliz porque seja a médio, a central ou a lateral, é um grande jogador, uma grande personalidade, é um jovem em crescimento, tem uma atitude competitiva acima da média. Vai ser um grande senhor no futebol. Foi um orgulho trabalhar com ele. Foi um dos momentos de maior qualidade de trabalho que pude produzir.

JESUALDO:

«FERNANDO SANTOS ESTEVE BEM AO COLOCAR PORTUGAL COMO CANDIDATO»

Analisa postura do selecionador quanto ao Euro'2016

Foto: Pedro Ferreira
R - Em 2016 haverá o Campeonato da Europa, em França, e Fernando Santos já assumiu que Portugal vai jogar para tentar vencer a prova. Como é que vê esta realidade?

JF - Eu acho que depois de todos estes anos, com a Seleção Nacional nas fases finais, qualquer selecionador pode dizer que Portugal tem condições para estar nos favoritos. Acho que o Fernando fez bem, os jogadores têm de se responsabilizar por isso, e têm de correr atrás daquilo que querem. Os jogadores que estão na Seleção há tantos anos, chegou a altura de quererem vencer mais qualquer coisa para além de estar nas fases finais. Se isso for um projeto coletivo, de treinador e jogadores, porque não? Agora, não podemos é reduzir a Seleção Nacional ao Cristiano Ronaldo, porque aí corremos o risco de não conseguir nada. Há alternativas ao Cristiano Ronaldo? A ele, objetivamente, não me parece. Agora, como equipa, coletivamente, pode ter as suas possibilidades. No Euro’84, a equipa tinha grandes jogadores, mas era fortíssima do ponto de vista coletivo e não tinha um Ronaldo ou um Eusébio, como em 1966. Em 2000, Portugal chegou às me ias-finais; em 2012, com a Espanha, também fomos às meias finais. Por isso, qual é o espanto de o Fernando dizer que Portugal está entre os candidatos a vencer o Europeu? Acho que fez muito bem em dizê-lo, agora é importante que os jogadores façam o seu trabalho.
 

JESUALDO: «SELECIONADOR? SE CALHAR FALTOU-ME ISSO»

Técnico faz retrospetiva à carreira


Foto: Pedro Ferreira

RECORD - Treinou o Benfica, FC Porto, Sporting, ganhou títulos, viveu experiência fora do país, com conquistas, trabalhou com as seleções jovens. Olhando pelo retrovisor da carreira, acha que lhe falta o cargo de selecionador nacional?

JF - Eu nunca entendi muito bem essa ideia. Há muita gente que se esqueceu ou não sabe que eu fui selecionador de todas as categorias, dos sub-14 aos sub-21, até fui adjunto do Artur Jorge na Seleção principal. Não fui selecionador principal de Portugal? É um facto, se calhar faltou-me isso, mas não vou chorar por causa disso. Mas sim, se calhar falta-me isso na carreira, não houve essa oportunidade, mas teria sido uma honra enorme para mim, depois de tantos anos como treinador.

R - Sente que o veem como uma mais-valia para este projeto?

JF - Sinto que sim. Aliás, tenho essa intenção, mas há um conjunto de circunstâncias que podem levar a que essa ideia se concretize ou não. O futebol vive do momento, de resultados, de projetos que começam e não terminam, outros que duram muito tempo. Aqui há cinco, seis meses, para poder, com a equipa e clube, encontrar uma plataforma de entendimento para colocarmos a nossa experiência e conhecimento ao serviço do clube; depois eles podem ou não aproveitar essa experiência. Não só em relação à equipa, mas ao próprio clube.








JESUALDO:

«QUANDO ISTO ACABAR? NÃO SEI FAZER MAIS NADA»

Treinador fala sobre o futuro


Foto: Pedro Ferreira

RECORD - Pela experiência que tem na carreira, acha que o técnico português é mais valorizado no estrangeiro do que em Portugal?

JF – Mas ainda bem que é assim, porque significa que somos capazes de sair do país. O treinador português começou a sair do país há dez anos, mais ou menos. É fácil falar do José Mourinho, porque saiu de um campeão europeu para outro campeão, mais difícil é falar de outros treinadores que, não saindo de um campeão europeu, conseguiram vincar as suas posições nos respetivos clubes fora do país. Não é por acaso que os técnicos portugueses são solicitados lá fora. Os treinadores saíram e conseguiram bons resultados. A escola de treinadores portugueses é boa, começa nos anos 80, felizmente ajudei nesse processo. Eu, em Portugal, construí uma carreira a pulso, sou um dos últimos moicanos nesta situação. O Toni entrou no Benfica, e eu como adjunto dele. Fomos capazes de ganhar dois campeonatos no Benfica, depois o clube ficou 11 anos sem vencer o título. No FC Porto, estive lá quatro anos, três anos fomos campeões nacionais, e passámos sempre a fase de grupos da Champions. Acho que há dois ou três técnicos que treinaram Benfica, FC Porto e Sporting na história do futebol português. Enfim, como deve calcular, tudo isto orgulha-me muito. Desde que comecei, nunca estive uma época inteira parado. Até hoje, com 42 anos de carreira, nunca estive uma época inteira sem trabalhar. Há uma paixão grande por isto. Uma vez, numa daquelas reuniões dos treinadores de elite, perguntei ao Alex Ferguson: "Míster, por que é que ainda treina?", e ele respondeu-me de uma forma muito simples: "Porque o futebol é o meu sangue". Eu revejo-me nisso. Quando sair disto, o que é que eu vou fazer? Na verdade, para te ser sincero, não sei fazer mais nada (sorri).
R - O futebol português ainda vai ter a oportunidade de voltar a contar com Jesualdo Ferreira?


JF - Eh pá!, sinceramente, isso não sei! Na verdade, eu nunca pensei que agora estaria aqui, muito menos pensei que alguma vez ia treinar num país como o Egito. Vou fazer 70 anos, muita gente que estiver a ler isto deve estar a pensar, "Eh pá!, vai para casa, reforma-te, já estás aqui a mais". Ainda consigo ter paixão, mas sei que vai chegar uma fase em que isso não será possível.