sábado, 10 de janeiro de 2015

Vieira arrisca "dar" Jesus ao FC Porto?

PRESSÃO ALTA


O Benfica está a aproximar-se, desportivamente e no âmbito da liderança técnica, de um fim de ciclo? A pergunta é legítima, porque Jorge Jesus termina o seu contrato daqui a pouco mais de cinco meses e o presidente Luís Filipe Vieira já veio afirmar, publicamente, que essa questão só voltará a ser abordada no final da época.


Quer queiram quer não, este timing de decisão revela que nem o presidente nem o treinador do Benfica têm a certeza sobre o que é melhor para ambas as partes. Da parte do presidente, há o objectivo de não adiar muito mais a questão da aposta na equipa principal de maior número de jogadores “fabricados” no Seixal. Numa recente entrevista, LFV falou mesmo de que “ter 4 ou 5 jovens na primeira equipa já será um salto significativo”. Considerando a constância da mensagem presidencial (“temos cada vez mais de contar com jogadores da formação nas nossas equipas profissionais”) e a profusão de trabalhos jornalísticos em relação a esta matéria, não se vê que o presidente do Benfica tenha margem de recuo.


Aliás, esse recuo nem é financeiramente possível, porque o caminho é reduzir o serviço da dívida e a redução do passivo já não pode ser apenas um objectivo panfletário mas uma exigência do ambiente económico-financeiro que rodeia as SAD e, concretamente, o Grupo Benfica, mesmo considerando o potencial da marca para gerar valor e receita. Acontece, porém, que a estrutura de custos é tão elevada que as receitas “ardem” com a mesma rapidez com que arde um pavio. E como já não há forma de maquilhar tão facilmente a realidade das contas (acabaram os financiamentos, as fáceis dilações e outras fórmulas artificiais de sustentar a dívida), a solução é abater nos custos. O Sporting já o fez; o FC Porto e o Benfica têm de o fazer, e estão a preparar-se para isso.


A sensação que se colhe – até pela declaração mais recente de Vieira sobre o assunto – é que o presidente do Benfica está confortável na gestão deste “dossier”. Confortável, por quê? Por achar que o futuro imediato do Benfica não fica comprometido sem Jesus ou porque considera que a procura por JJ não é uma ameaça real?


Não me parece, sinceramente, que Vieira tenha razões para se sentir confortável com a situação. Primeiro, porque – se é verdade que a luta pela conquista do título está cada vez mais delimitada – as raízes criadas por Jesus, na Luz, em termos de métodos e resultados, foram profundas. Muito profundas. Segundo, porque, mesmo sabendo que JJ só tem interesse em treinar num grande clube europeu, capaz de lhe colocar ao dispor alguns dos melhores jogadores a actuar na Europa, não é líquido que, em Portugal, não haja alternativas para além do Benfica.


Parece haver uma grande despreocupação de Luís Filipe Vieira em relação ao contrato de Jorge Jesus e que não está justificada


Vieira pode estar a jogar com o facto de, não havendo Benfica na Europa e estando Jesus, por isso, mais escondido, o interesse europeu nos serviços do treinador dos encarnados seja, em tese, menor. Vieira joga também com um argumento de grande peso: o presidente do Benfica sabe que, nestas condições, quem pode colocar Jesus no mercado externo é Jorge Mendes. Também por isso, e pela grande proximidade com Mendes, LFV está convicto do controlo da situação.


Há ainda um outro cenário, que é o de Vieira não confessar o seu cansaço por um treinador-não-permeável, muito cioso da sua autonomia desportiva. Quer dizer: o entendimento é cordial, mas Vieira precisa de ser reconhecido como o motor da transformação do Benfica, e ainda não é. Quem foi o motor da transformação do futebol do Benfica, nos últimos 6 anos, foi Jorge Jesus. E isso não é fácil de digerir.


Acontece, porém, que Vieira não deveria colocar o FC Porto fora de hipótese. É bom não esquecer a importância do desfecho desta época desportiva. Se o FC Porto voltar a perder o campeonato, Pinto da Costa e a SAD vão precisar de um argumento muito forte. E esse argumento pode ser JJ, como ficou claro na última visita ao Dragão...


NOTA 1 – A jornada deste fim-de-semana é muito importante para as contas finais do campeonato: Benfica-V. Guimarães (hoje) e Sp. Braga-Sporting (amanhã) são jogos aguardados com grande expectativa.


NOTA 2 – Considerando a notícia de que a FIFA excluiu a língua portuguesa da sua página oficial, com o encerramento do ciclo do Mundial no Brasil, é tempo de Cristiano Ronaldo, José Mourinho, Jorge Mendes, Neymar e C.ª fazerem valer a sua influência e falarem em português sempre que forem solicitados, pela FIFA, a prestar declarações. Talvez seja a única forma de a FIFA valorizar o papel de algumas das figuras mais relevantes do futebol mundial. A UEFA também. Como eles dizem: “Respect!”


O CACTO


Porcariedade e hipocrisia


O ataque ao Charlie Hebdo é uma ameaça aos pilares da democracia, mas é também um sério aviso à vulnerabilidade das pessoas e das instituições, mesmo considerando a evolução da Humanidade desde os seus primórdios. Todas as palavras serão poucas para homenagear a liberdade. Todas as palavras serão poucas para condenar profundamente o terrorismo, o crime e todas as formas de violência. Todas as palavras serão poucas para rejeitar o fuzilamento das ideias, do pensamento, da cultura e da intelectualidade.


A protagonização da barbárie é preocupante. Mas mais preocupante são algumas vozes que se fazem ouvir por aí, neste tempo em que todos publicam, segundo as quais as capas e os cartoons publicados foram (maus) exemplos de provocações em excesso. Esta construção de que as ideias e as opiniões devem ser reprimidas representam um perigo efectivo. E isso atira-nos para a realidade portuguesa e para a fraquíssima tolerância que existe na relação entre os protagonistas do futebol português e o jornalismo desportivo.


Tenho lido apelos hipócritas à defesa da liberdade de expressão, feitos por pessoas que já censuraram, sem o mínimo pudor e vergonha. A precariedade do sector não o deve colocar num regime de... porcariedade. Os chamados “excessos” são a justificação para a exclusão. Foram esses alegados “excessos” que vitimaram a alma (imorredoura) do Charlie Hebdo. Cuidado com os falsos “libertadores”. Eles continuam aí.
Rui Santos no jornal record

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