quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Rui Vitória: o alquimista de Guimarães

LUDOPÉDIO
O Vitória de Guimarães tem, desde sempre, o respaldo de uma cidade que não admite dividir o palco com outras cores. E, já se sabe, tem adeptos de uma fidelidade à prova de bala e que, em muitos casos, fazem gala em afirmar-se, até de forma por vezes excessiva, ainda mais vitorianos do que vimaranenses. Mas esta época passou também a ter uma equipa que é das coisas mais cativantes e subversivas que o futebol português foi capaz de criar nos últimos anos. Desde logo por ter ajudado a desmontar o velho conceito de que a competitividade tem obrigatoriamente de rimar sempre com orçamentos relativamente gordos e jogadores com galões.



Para a quebra deste paradigma foi fundamental não só o engenho e a fleuma do presidente Júlio Mendes, mas principalmente a sapiência do treinador Rui Vitória, que – já não restam dúvidas – tem o dom dos verdadeiros alquimistas: desde os tempos nos juniores no Benfica, no Fátima e no Paços de Ferreira que vem conseguindo transmutar jogadores imberbes em craques com muitos quilates. Hoje, quem quiser perceber melhor a pedra filosofal do futebol português tem, obrigatoriamente, de investir também algum tempo no estudo de um Vitória que só gasta três milhões nos ordenados do plantel e segue no terceiro lugar do campeonato no calcanhares do Benfica e do FC Porto e com quatro pontos de vantagem sobre um Sporting de quem fez gato-sapato na última jornada.


O presidente Júlio Mendes prescindiu da remuneração de 70 mil euros


Quando Júlio Mendes tomou posse em abril de 2012, encontrou um clube perto do colapso. O seu antecessor Emílio Macedo (que acabaria expulso de sócio) deixara-lhe um passivo de 24 milhões de euros (entretanto reduzido em dez milhões) e vários meses de ordenados em atraso. Foi necessário negociar com o Fisco e aceitar um administrador judicial (situação já ultrapassada), ficando o clube preso até 2024 à obrigação de pagar ao Estado cerca de dois milhões de euros todos os anos só à conta da dívida. Júlio Mendes cortou a direito. O orçamento que em 2010/11 se aproximou dos dez milhões de euros baixou na época seguinte para cerca de metade e os jogadores com nome feito foram desertando ou sendo empurrados. Uma opção difícil, mas mais fácil de tomar por quem prescindiu da remuneração de 70 mil euros. Mas, se o presidente abdicou de quase todos os anéis, também percebeu a importância de manter um treinador que dá lições de conhecimento e urbanidade (para libertar o stress comprou um par de baquetas e uma bateria, onde descarrega o stress nos momentos mais difíceis, como quando sofreu cinco derrotas consecutivas em novembro de 2013).



O presidente não só o manteve como, entretanto, lhe renovou o contrato até 2016/17, transformando-o numa espécie de “manager” (com poderes alargados à equipa B e à formação). A estrutura foi otimizada com Flávio Meireles (diretor desportivo) e Luís Castro (coordenador), não sendo também difícil perceber o papel determinante do treinador Armando Evangelista na deteção e potencialização dos jovens talentos (o Vitória é campeão nacional de juniores B). Foi já muito à custa deste novo rumo que o Vitória conseguiu o maior feito da sua história, quando em maio de 2013 bateu o Benfica na final da Taça de Portugal. Mas, quase tão marcante, acabou por ser o triunfo de sábado sobre o Sporting. Num jogo em que não podia contar os únicos jogadores verdadeiramente tarimbados (Douglas, Defendi e Moreno), Rui Vitória confirmou por que razão o jornal italiano “Gazzetta dello Sport” o incluiu recentemente entre um restrito lote de “treinadores mágicos” e que do pouco sabem fazer muito. E faltou dizer que qualquer um dos outros escolhidos ( Gary Monk, do Swansea, Roger Schmidt, do Bayer Leverkusen, e Willy Sagnol, do Bordéus) sobrevive num cenário idílico se comparado com aquele com que se debate todos os dias o técnico vitoriano. Dois exemplos entre muitos possíveis: dos 11 titulares do Vitória que destroçaram o Sporting, sete alinhavam há um ano na equipa B (e o número sobe para 12 se levarmos em conta os 18 convocados) e André André, com 25 anos, era o mais velho.



Talisca vale quanto pesa



Talisca tem visão periférica, queima linhas com a mesma facilidade com que devora um sorvete e aquele pé esquerdo tanto serve para o toque subtil e genial como para aplicar uma “raquetada”. É injusto exigir mais a um miúdo de 20 anos (por exemplo, que faça de Gaitán na esquerda…).



Lito Vidigal tem pólvora na frente



A ideia de jogo de Lito Vidigal não prima pela modernidade, mas o Belenenses tem 17 pontos e divide o 4.º lugar com o P. Ferreira. O sucesso assenta na qualidade da frente: Miguel Rosa amadureceu, tal como Fredy, e Sturgeon (20 anos) tem características raras. E Deyverson continua de pé (e cabeça) quente(s).



A esperteza de Miguel Leal



Miguel Leal fez o milagre de fazer subir o Penafiel, mas, no final da época, percebeu que a formatura em Educação Física e os mestrados em Ciência do Desporto e Psicologia deviam era ser rentabilizados em Moreira de Cónegos, onde havia melhor matéria-prima. Venceu o Marítimo no Funchal e segue num tranquilo nono lugar… Foi esperto!



O que se passa no Sporting B?



Alguém consegue explicar o que se passa na equipa B do Sporting? Já vai no terceiro treinador e parece ter deixado de servir para potenciar os jovens promovidos para dar lugar aos erros de “casting”. E do resto da formação nem é bom falar…



Blatter tem muita lata



Blatter saiu apupado e debaixo de bombas de fumo de um colóquio na Universidade de Zurique (e ele até é suíço…). Também foi preciso ter lata para ir lá fazer uma palestra sobre “O futebol como uma escola de vida…”
Bruno Prata no Jornal Record

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