quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quaresma grande de mais para figurante

DE PÉ PARA PÉ

1 Há jogadores que atingem mais depressa o coração dos adeptos. Esse caminho costuma apresentar-se mais desbravado para os virtuosos, aqueles que têm o condão de melhorar tudo o que tocam, fazendo as coisas ao contrário do que estamos à espera. Quando juntam eficácia ao brilho de invenções personalizadas que multiplicam vezes sem conta, a plateia declara-os ídolos eternos. Ricardo Quaresma é daqueles magos cuja fantasia inebria plateias ávidas de espetáculo, impulsiona a equipa e atemoriza os adversários. Desenvolveu a cultura de herói com tiques exibicionistas e precisou tanto de calor humano para ser feliz que nunca soube verdadeiramente lidar com o gelo da provocação, da distância e da recriminação sem sentido pedagógico.


2 RQ7 é um talento que excede a folha de serviços que a carreira lhe deu; não é possível avaliá-lo em toda a dimensão olhando só para números e títulos, porque eles escondem um arsenal inesquecível de obras-primas, truques e milagres repetidos até à exaustão e que já fazem parte da memória coletiva de quem os viu e viveu. Sempre foi um jogador especial, um extravagante com orgulho na arte que domina, para quem o barulho das bancadas e o reconhecimento dos companheiros são quase tudo na vida. RQ7 não cumpriu o destino de chegar ao topo do mundo, mas nem isso aliviou a defesa contundente do que interpretou como ataques vindos de cima a prestígio, admiração, paixão e demais conquistas obtidas num percurso longo e quase sempre sofrido.


Senhor de fortíssimo poder hipnótico, precisa de calor humano para ser feliz


3 Símbolo do FC Porto na última década, RQ7 não pode ter rédea solta para fazer o que lhe apetece; mas também não pode ficar à mercê de decisões que desrespeitem o brilho do seu passado e belisquem a qualidade do seu presente. Julen Lopetegui, homem experiente, ambicioso e com boa formação, está obrigado a defender as suas ideias. Mas deve identificar também (e fê-lo certamente) a grosseria, o desrespeito e o confronto inerentes à provocação de obrigar um ídolo, ainda em estado de graça pelo regresso a casa, não a sentar-se no banco mas a jogar apenas um minuto em Lille; ou a deixá-lo, uma semana depois, aquecer durante 45 minutos sem o fazer entrar; ou ainda tirá-lo ao intervalo de um jogo em que nada correu bem à equipa (em Alvalade) e não convocá-lo a seguir, sugerindo a individualização do fracasso.


4 Quaresma é um artista grande de mais para ser mero figurante; uma figura maior que até aceita jogar sob tortura, enfrentando os sopros gelados da incompreensão, mas que se revolta perante a desconfiança de quem devia dar graças a Deus por tê-lo do seu lado; um soldado de elite que assume sempre as responsabilidades, luta pela inspiração e recusa jogar só para salvar a pele. Senhor de fortíssimo poder hipnótico, aos 31 anos é tarde para ser domesticado nos princípios mais sagrados da existência – muitos explicam por que não foi uma estrela mundial mas, se não abriu mão deles quando era novo e estava no auge, não será agora que vai fazê-lo. Feito o balanço, só um fenómeno pode enfrentar a enésima travessia do deserto sem diminuir a aura que, afinal, o acompanhou desde o início da viagem: a de um génio do futebol.


Paulo Fonseca não fechou a porta


Paulo Fonseca falhou no Dragão mas, ao contrário da esmagadora maioria de quem fracassa num grande clube, não matou a esperança de voltar a conduzir um Ferrari. Basta olhar para a classificação (o quarto lugar não engana) e ver o Paços de Ferreira jogar – uma equipa que domina todos os momentos do jogo e tem jogadores que, de tão confiantes, confortáveis e felizes, estão a expressar-se acima das capacidades que julgavam ter. Era de facto lamentável que um treinador como Paulo Fonseca, aos 41 anos, visse definitivamente fechadas as portas do paraíso.


Clone perfeito do velho André


André André tem os genes de um dos mais notáveis futebolistas portugueses de sempre (o pai foi internacional e campeão europeu pelo FC Porto). O ofício aprendeu-o pelo caminho, condicionado pela pesada herança de um nome grande, e só agora, em idade perfeita para se afirmar (25 anos), conjugou os argumentos necessários à construção de um grande médio. É o alicerce mais sólido, o barómetro e o dínamo que faz disparar o sensacional V. Guimarães de Rui Vitória. Vê-lo correr, posicionar-se e jogar confirma que é o clone perfeito do velho André. Logo, é um craque a ter em conta.


De Sturgeon para Miguel Rosa


Fábio Sturgeon fez um último esforço para não deixar a bola sair pela linha final. Mas fez mais: transformou uma decisão estritamente física num grande momento de futebol, cumprindo a máxima de que um atleta quando chega acaba, enquanto um futebolista quando chega começa. O jovem belenense, cujo talento é tão indiscutível quanto o futuro brilhante que tem pela frente, fez um cruzamento sublime para a entrada fulminante de Miguel Rosa. O extremo fez então de ponta-de-lança: atacou a bola, saltou, parou no ar e executou cabeceamento perfeito. Parecia que tinha 2 metros. Só tem 1,78 m.
Rui Dias no jornal record

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