quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O sonho francês

Agora que os meus escritos sobre futebol são menos reguls, cá fica um texto escrito expressamente para a revista 360 da FPF (muito boa, por sinal, a revista, não a minha prosa), a que se deu o título "Contas por saldar em França" mas que também podiam ser qualquer coisa como "Diabos levem os franceses" ou "Um dia dou cabo de ti, bête noire":
"Busco as minhas primeiras memórias da seleção num rádio portátil, roufenho, adoro esta palavra, roufenho, a que melhor traduz o som de fundo que nos traziam os relatadores da rádio, especialistas de bola em palavra corrida tal como me tornei mais tarde. Vinha cá jogar a Polónia, às velhas Antas, e trazia o Lato, herói de 74 dois anos antes, explicava-me o Flávio, meu irmão, percebi mais tarde que o tal Lato era careca, quando careca já estava de saber que a bola me encantava, Pedroto a treinar, Freitas a titular na defesa, acho que chovia, o Lato marcou e outro polaco qualquer também, perdemos dois a zero no tempo em que perder em casa com a Polónia era normal.
 
Lembro-me depois de outros golos na rádio, como os do Alberto, negão de Cabo Verde que foi do Benfica e do Belenenses, marcou dois seguidos ele que era lateral, à Áustria de certeza, acho que também à Escócia, e mais aquele jogo incrível lá na Escócia, na volta, em que tudo o Bento agarrou, num zero a zero que os jornais celebraram mais, no dia seguinte, que uma qualquer vitória dos dias de hoje, era bom empatar na Escócia, que o Portugal dos pequeninos apenas recuperava de uma década agitada e via regressar ambições desportivas desaparecidas com o fim da carreira de Eusébio na Minicopa.
 
Chegou 84, ou antes 83, que a magia de Chalana e Jordão começou no penálti falso no Estádio da Luz frente à União Soviética, início de uma nova verdade em que já era permitido pedir para sonhar, como Torres fez dois anos depois de termos tocado o céu da Europa, em França, a ganhar naquele prolongamento maldito, de ilusão e lágrimas, em que Domergue e Platini tornaram inúteis os saltos eufóricos que dei pela casa após a carambola do Jordão.
 
Afinal, não só era possível ter Portugal numa fase final como até conseguíamos jogar ao nível da Alemanha, da Espanha, da França, eu pensava que não. E veio Saltillo, a revolta no México, a rábula dos jogadores proscritos e um regresso à cauda da Europa, antes do milagre de Queiroz, dos meninos de Queiroz que levaram as quinas de volta aos palcos grandes e de onde não mais saímos, até hoje, exceção feita ao dia em que o francês Batta, sem coragem nem vergonha, expulsou Rui Costa por única vez na carreira e nos tirou o Mundial dos emigrantes, era outra vez em França.
 
Não mais faltámos desde então, vimos Portugal jogar como nunca em 2000 mas perder de novo uma meia final, aos pés de França e na mão disfarçada de Abel Xavier, e cair sem honra nem glória mais dois anos passados, no Oriente, depois da fase final mais mal preparada de sempre. Em 2004, a redenção, num país que corri em programas televisivos diários, bandeiras por todo lado, a geração de ouro misturada com o melhor Porto de Mourinho, uma grande equipa que tinha de ter ganho mas não ganhou, coisa de fado talvez.
 
Mais dois anos e novas maratonas televisivas na Alemanha, junto de emigrantes e de muitos que migravam por dois ou três dias para confirmar in loco que agora éramos dos melhores do mundo, éramos mesmo, e até estivemos quase na final planetária, não aparecesse a bête noire do costume. Começava o reino de Ronaldo mas despedia-se a melhor geração desde 66: cumprimos os mínimos em 2008 e 2010, sonhámos, com alma e rigor de novo, em 2012 mas 2014 provou que há outro caminho para começar. A próxima meta merece ser inspiradora, de novo a França.
 
Vai acontecer lá chegar e lá chegados, antecipo o desejo, que apareçam de novo os franceses que há uma história diferente para escrever, e contas antigas para saldar, por Chalana e Jordão, por Figo e Rui Costa. E por nós, adeptos da equipa de todos, que andámos há uns anos a sonhar com isso."
Texto de Carlos Daniel na sua página do Facebook
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