sábado, 11 de outubro de 2014

«A grande entrevista de Jorge Jesus ao Jornal Record»

 

«Festa no Marquês é a coisa mais bonita»
NA PRIMEIRA GRANDE ENTREVISTA DA ÉPOCA, O TREINADOR EXPLICA O QUE ESPERA DO NOVO BENFICA
 
A entrevista estava agendada para as 12 horas de quinta-feira, mas Jorge Jesus só surgiu perante os jornalistas de Record pouco antes das 13h30. O treino no Seixal prolongou-se, apesar de não estar a trabalhar com todo o grupo, devido aos jogadores que se encontram ao serviço de várias seleções. A primeira reação foi de espanto, perante o aparato de câmaras e luzes. Explicamos que a conversa será gravada em vídeo para posterior reprodução nos programas “Hora Record” (hoje, a partir das 14h30 na CM TV) e no “Especial CM Jorge Jesus”, a ir para o ar no mesmo canal, esta noite, pouco antes das 23 horas, com Paulo Futre e António Magalhães (diretor de Record) em estúdio, para comentar aquilo que o treinador do Benfica disse. Depois de cumprimentar os presentes na sala, entre os quais uma equipa da BTV, senta-se, olha para o relógio e, em jeito de brincadeira, diz que em vez de almoço vamos é jantar. Com efeito, a mesa estava marcada no O Barbas-Catedral, na Costa de Caparica, para as duas da tarde. Seria uma missão impossível...

Entra na conversa de forma descontraída, abordando a pré-época algo atribulada, não esconde a surpresa por um arranque tão bom na 1.ª Liga e aceita explicar, jogador a jogador, as suas opções, quer no momento de formar o plantel quer na escolha da equipa.

Começa a surpreender quando fala nas inovações que está a introduzir no estilo do Benfica, passa pelo tema que mais gosta, a evolução do jogo, e aí sentimos que está em casa. Falar de futebol é a “praia” dele. “Sou um apaixonado pelo futebol.”


A primeira vez que coloca na voz um tom mais exaltado é quando aborda a questão do aproveitamento dos jovens da formação. Saem-lhe da boca nomes e números de negócios. Por contraste, o único momento em que revela hesitação e responde com um tom de resignação surge após ser confrontado com o desejo de ir para o estrangeiro, por sentir que em Portugal dificilmente ganhará a Liga dos Campeões.

Uma hora e 20 minutos depois, Ricardo Lemos (assessor de imprensa) avisa que a entrevista chegou ao fim. À terceira tentativa lá conseguiu colocar o ponto final numa conversa que parecia ter começado há instantes. Era hora de seguir para o almoço. Prejudicado ficava o trabalho do Miguel Barreira, sem tempo para realizar a sessão fotográfica pretendida. Tentaria, junto à praia, obter mais um ou outro “boneco”.

Quando chegamos ao restaurante já o António Magalhães nos aguarda. Anastácio, o homem que naquele estabelecimento serve Jesus há muitos anos, conhecendo-lhe todos os gostos, começa o desfile de iguarias, entre lulas, camarões e “cadelinhas” antes de chegar o misto de peixes grelhados, para acabar com as uvas e tangerinas que o técnico não dispensa. Não resiste ao “pijama” de doces, mas recusa o café. Aliás, nunca o bebe.

O Miguel Barreira consegue mais umas fotografias, Jesus fica a conhecer um pequeno cão chamado Talisca e quando damos por nós já a tarde se despede. A luminosidade é escassa, mas o mar ainda está repleto de surfistas. “Quem é que não gosta de uma praia destas?”, pergunta Jorge Jesus a olhar o mar.

«Não esperava ter esta vantagem para FC Porto e Sporting»
ASSUME QUE SE IMAGINA DE VOLTA AO MARQUÊS EM MAIO PARA FESTEJAR O TÍTULO
 
RECORD – Esperava ter, nesta altura, uma vantagem de 4 pontos para o 2.º classificado? Há mérito do Benfica ou demérito dos adversários, neste caso concreto o FC Porto?

JORGE JESUS – Não, não esperava à 7.ª jornada ter esta vantagem para o FC Porto e Sporting. Porquê? Perdemos jogadores e os dois rivais reforçaram-se muito bem. É mérito nosso, em 7 jogos só empatámos um. Agora, não é determinante. É um ciclo, são 7 jornadas nas quais estivemos melhores do que os rivais. É bom, estamos mais moralizados, confiantes, mas não se ganham campeonatos à 7.ª jornada. Os jogadores do FC Porto dizem que 4 pontos não são nada, os do Sporting que 6 pontos não são nada e eu também penso que, nesta altura, não são nada.

R – Mas habitualmente, nesta fase, o Benfica estava atrás e agora corre à frente. Isso permite uma melhor gestão da prova, ou não?

JJ – Só tem uma vantagem: quem corre à frente pode gerir melhor. Nunca se pode perder, mas quando se está de baixo para cima a parte psicológica pesa mais, porque não se pode perder pontos. De resto, não tem vantagem nenhuma.

R – Imagina-se em maio numa festa igual à do ano passado no Marquês?

JJ – Claro que sim, estamos a trabalhar para isso. Para viver essa manifestação de identidade, de paixão de sentimento. Só quem já esteve lá duas vezes é que sabe. Até nos emocionamos só de nos lembrarmos disso. É a coisa mais bonita! Qual é a prova em Portugal que provoca essa paixão? Estou convencido que se um dia o Benfica fosse campeão europeu não teria 300/400 mil pessoas no Marquês. Só o campeonato nacional leva a isso.

R – O Sporting é mais candidato esta época do que há um ano?

JJ – É! É mais candidato, tem mais equipa. Os grandes jogadores não saíram, só saiu o Rojo. Os jogadores que ficaram estão melhores porque têm mais um ano de trabalho. As ideias da equipa não mudaram muito. Pode haver algumas ‘nuances’, porque o Leonardo e o Marco são treinadores diferentes, pode haver algum pormenor que ainda não descodifiquei, mas não me parece que existam grandes diferenças. Depois, o Nani veio dar uma grande qualidade à equipa do Sporting, é um excelente jogador, de nível muito alto. Há bons e grandes jogadores e o Nani é um grande jogador. Um bom jogador é aquele que joga bem e o grande é aquele que joga bem e coloca os outros a jogar bem, que é o caso do Nani. Isto para além do Slimani ser mais jogador, do Carrillo ser mais jogador...

R – Os três empates consecutivos do FC Porto surpreenderam-no?

Quando saio da minha área restrita não vou discutir com árbitros ou adversários. Às vezes nem sei onde estou!

JJ – No futebol nada me surpreende e o campeonato português, ao contrário do que todos dizem, é muito competitivo. Não valorizamos o nosso campeonato. Uma das coisas que me dá muito orgulho quando vou ao Fórum de treinadores de elite da UEFA – e não é por eu ir, que já é o 6.º ano e se calhar para o ano já não vou! – é quando passam o top ten dos clubes e campeonatos da UEFA. Dos mais competitivos, Portugal é o 4.º! À frente só estão Inglaterra, Espanha e Alemanha. E isto não acontece porque eles são malucos, mas porque as equipas portuguesas fazem pontuação para merecer aquilo. E outro motivo de grande orgulho é quando vejo o Benfica em 5.º no ranking das melhores equipas da Europa. O campeonato português ter esta qualidade deve-se à pontuação que as equipas fazem quando jogam com as estrangeiras. Mas há aí uns malucos que querem inventar e quando eles quiserem avançar com quotas de jogadores, o nosso campeonato vai estar ao nível da Turquia, da Grécia, da Bélgica, da Holanda, da Rússia. E na Rússia eles têm dinheiro para comprar jogadores de 50 milhões, nós vamos ter é para comprar jogadores de 50 tostões. O que quero dizer com isto? Quando decidirem que em Portugal terão de jogar 5/6 portugueses e os restantes serem estrangeiros, esqueçam. A competitividade de equipas como Benfica, FC Porto, Sporting, Marítimo, das equipas que vão à Europa, passa para a 3.ª divisão. Porque os melhores jogadores portugueses vão continuar a sair e vamos ter, nessas equipas, os portugueses que não são opção para clubes estrangeiros. E depois como não teremos capacidade de fazer a prospeção que hoje fazemos, as nossas equipas vão cair.

R – Voltando ao FC Porto... Há, ou não, uma surpresa neste arranque? E que análise faz à forma como o treinador, Lopetegui, se tem queixado das arbitragens?

JJ – Não direi que exista surpresa. Os treinadores portugueses, em termos de conhecimento de estratégia e técnica, são muito fortes, são dos melhores do Mundo. Quando estou junto dos melhores digo-lhe isso, e vejo o que eles sabem e o que nós sabemos e dá-me um grande gozo. Já estive do outro lado, com jogadores de menor nomeada, e só através de um equilíbrio muito forte é possível fazer com que seja muito difícil a equipas como o Benfica e Sporting ganharem. Isto acontece pela qualidade tática dos treinadores portugueses. Surpresa? Para mim não. O FC Porto fez aquisições, na maioria, de equipas de nível e não desconhecidas. São jogadores já com uma afirmação muito boa. O treinador veio para um campeonato que se calhar desconhecia. Agora, o que acho é que se o treinador entende que a equipa está a ser prejudicada, que fale! Como eu falo. Tem o direito a ter opinião. Agora o “parece-me que é, mas não é”, “o árbitro também pode errar”... isso é que não é nada! Tem de se definir e depois estar sujeito às críticas como eu estou. Os homens da política ensinaram-nos a estar em cima do muro, a ser politicamente corretos. Isto não entra em mim, nem como cidadão nem como treinador. Não gosto de pessoas que sejam politicamente corretas. É ou não é! Isto é que é ter personalidade e caráter.

R – Bruno de Carvalho afirmou recentemente que Jorge Jesus pode sair quando quer da área técnica que ninguém lhe diz nada...

JJ – É uma opinião, mas quando saio da minha área restrita não vou discutir com adversários, nem com árbitros. Faço-o sempre no intuito de estar mais próximo de um jogador meu. Claro que tenho de ter as mesmas regras e não posso ter privilégios. Mas, às vezes, nem sei onde estou! Não o faço com intencionalidade.


«Wenger perguntou-me como conseguia este equilíbrio»
 REVELA ELOGIOS DO TÉCNICO FRANCÊS

 
R – Está preparado para perder Enzo Pérez em janeiro?

JJ – Estou preparado para perder todos os jogadores. É verdade que nunca perdemos tantos como este ano. O Benfica perdeu oito jogadores que foram para outros clubes, mais o Fejsa e o Ruben Amorim [lesionados]. Fala-se muito, mas daquele onze que normalmente jogava, o Benfica perdeu sete jogadores: Oblak, Garay, Siqueira, Matic em janeiro e depois Fejsa; Markovic – o Salvio estava lesionado e não jogava – Rodrigo e Cardozo, dois avançados que juntos faziam 30-40 golos por época. Não é fácil! O Arsène Wenger quando esteve comigo perguntou-me como conseguia que o Benfica tivesse este equilíbrio. Além de ficarem alguns, os jogadores que vêm têm qualidade e alguns já conseguem trabalhar atrás dos que estão cá e, assim, os processos tornam-se mais fáceis. E a verdade é que os sabemos escolher. Não todos, porque também falhamos, mas a formação e prospeção do Benfica está muito bem trabalhada.

R – Nesse sentido pode dizer-se que Sílvio, Sulejmani, Fejsa e Ruben Amorim podem ser reforços em janeiro?

JJ – Se recuperarem penso que sim, principalmente Fejsa e Ruben, porque são dois jogadores para uma posição específica onde só há o Cris e o Samaris. Para os lugares do Sílvio e do Sulejmani já há mais opções, mas são jogadores que podem acrescentar qualidade ao plantel.

«Ainda não cheguei ao meu limite como treinador»
 ABORDA RENOVAÇÃO DO CONTRATO
 
 
 
R – Jorge Jesus é um treinador de recordes. É o que está há mais tempo no Benfica; foi o primeiro a vencer as quatro provas nacionais; é o técnico com mais vitórias (196) na história do clube e está a um de ser aquele com mais títulos, podendo alcançar Otto Glória. São recordes que acabam quando? Há vida para Jorge Jesus no Benfica para além de junho de 2015?

JJ – No futebol há sempre vida...

R – No Benfica?

JJ – No Benfica e fora. Sou um apaixonado pelo futebol, a minha paixão, a minha vida é o futebol. No Braga, no Amora, no Belenenses, no Benfica e se tiver de sair será assim noutro clube.

R – Luís Filipe Vieira afirmou que tinha em cima da mesa o contrato de renovação e que dependia de Jorge Jesus assiná-lo. Pensa passar pela SAD para renovar ou faz isso depender de ser, ou não, campeão?

JJ – Não... no futebol tudo muda de um dia para o outro. Não me iludo. Sei a profissão que escolhi. E lá vou eu falar da mala, mas quando digo que a minha tem de estar sempre à porta, é porque um treinador tem de ter a noção que é assim, que a mala tem de estar sempre à porta. Porque, a qualquer momento, o futebol muda. O nosso selecionador Paulo Bento fez uma carreira de recuperação e de apuramento brilhante e em dois jogos tudo mudou, e hoje já não é selecionador. Isso acontece com qualquer treinador e há que estar preparado para isso.

R – Já tem a Supertaça conquistada este ano e assumiu que o objetivo é o bicampeonato. Se o alcançar, não poderá ser um impulso para querer algo mais com o Benfica?

JJ – Ainda não cheguei ao meu limite como treinador! O bicampeonato é importante porque há 31 anos que o Benfica não o ganha, e é importante para mim porque nunca ganhei dois campeonatos seguidos. Mas isto não acaba aqui. Em Portugal, felizmente, ganhei tudo. Não em números, nunca ganhei 10 campeonatos, nem 5 taças... mas em títulos já ganhei tudo.

R – Mas gostava de ir a uma final da Liga dos Campeões?

JJ – Claro que sim, por isso é que disse que em Portugal já ganhei tudo, mas como treinador ainda me falta conquistar outras coisas.
 
«Enquanto Artur estiver bem os outros terão de esperar»
EXIBIÇÃO FRENTE AO AROUCA ALTEROU AS CONTAS NA BALIZA
 
R – Acredita que Júlio César vai ser um guarda-redes muito presente na equipa ao longo da época?

JJ – Se ele não tiver mais problemas físicos, acredito que sim. No tempo que se treinou connosco mostrou toda a sua qualidade técnica. É um guarda-redes super-rápido na baliza. Tecnicamente muito evoluído com os pés. Não cai para a bola, voa para a bola. É um excelente guarda-redes. Agora, se vamos conseguir extrair todas essas qualidades dele... se ele não tiver outros problemas físicos, não tenho dúvidas nenhumas que sim. Mas sobre essa questão não tenho certezas.

R – Enquanto ele não está apto, sente-se confortável com o Artur na baliza?

JJ – Estou confortável com o Artur...

R – (Interrompemos)... Tantos elogios a um guarda-redes no final de um jogo ganho por 4-0, parece uma necessidade de moralizar alguém que pode estar mais frágil...

JJ – É verdade que não há jogadores iguais, mas estou confortável com o Artur. Dizemos que não há titulares, mas é verdade que jogam mais uns que outros. Em todas as equipas do Mundo. Temos quatro guarda-redes e não são iguais. A diferença de valor de uns para os outros existe, mas confio no Paulo [Lopes], no [Bruno] Varela, no Artur e no Júlio César. A questão do Artur coloca-se porque houve um jogo em que ele não esteve bem e os guarda-redes são mais sacrificados quando falham. Um avançado pode falhar golos ou passes e não é tão apontado. Não faço favores a nenhum jogador, mas é verdade que o Artur, frente ao Arouca, sacou duas ou três bolas de golo. É a mesma coisa que ter feito golos e tive de lhe dar os parabéns. Mas no dia em que não fizer as coisas bem...

R – Sente-se ou não mais confortável com Júlio César na baliza?

JJ – Não, eles vão dizer-me durante a semana quem é o melhor. O Júlio foi para a baliza porque o Artur não esteve tão bem no jogo com o Sporting. Como não podia jogar na Champions, tinha de optar entre o Varela e o Júlio. Fui obrigado a fazer essa escolha. Agora o Artur voltou, porque o Júlio estava lesionado, fez um excelente jogo com o Arouca e os outros vão ter de esperar enquanto ele se mantiver bem.
 
«Se contratarmos por 20/30 milhões dificilmente iremos falhar»
TODAS AS EXPLICAÇÕES PARA UMA PRÉ-TEMPORADA ATRIBULADA
 
R – Para quem estava de fora, a pré-temporada pareceu atribulada. Esperava, depois disso, começar tão bem a época?

JJ – É verdade que estamos melhor do que eu pensava, face aos jogadores que saíram. Não pela pré-época, porque nesse aspeto sabia bem o que havia para fazer e optei por uma metodologia de treino diferente dos outros anos. Muitos dos jogadores que conheciam as nossas ideias não fizeram a pré-época e chamei vários da equipa B para avaliar todas as suas capacidades, bem como as dos futebolistas novos que tinham chegado ao clube. Sabia que em termos de resultados não ia ser positivo, mas naquilo que me interessava, que era obter um conhecimento mais rápido de todos, foi importante. Comecei a fazer a triagem a partir daí.

R – Os jovens da equipa B e os reforços jogaram mais do que seria de esperar, porque vários jogadores estavam no Mundial do Brasil ou lesionados...

JJ – Sim, isso também obrigou a acelerar este processo. Podia dizer que tive essa facilidade. Apesar dos resultados, estava tranquilo. Quando sabes o que estás a fazer, estás sempre confiante. Volto a dizer que o futebol não é uma ciência exata, mas é uma ciência para quem treina. A metodologia não é igual para todos os treinadores e muita gente pensa que para se fazer uma grande temporada tem de fazer-se uma grande pré-época. Mentira, isso é tudo errado. A pré-época só é importante para se começar bem a temporada. Mais nada.

R – Quais os jogadores da equipa B que na altura pretendia conhecer melhor?

JJ – O Dawidowicz, o João Teixeira, Cancelo, Victor Andrade, Bernardo, Ivan, Lindelöf e Bruno Varela.

R – Colocá-los a jogar tanto, sem o apoio do “núcleo duro” da equipa, que estava ausente, não podia prejudicá-los, até em função dos resultados obtidos?

JJ – Não, acho que até beneficiaram com isso. Quando se faz um torneio como fizemos em Londres [Emirates Cup], com Valencia e Arsenal, meter os miúdos a competir com tanta intensidade, frente a jogadores com aquela qualidade, dá para perceber a que nível é que eles e os outros estão para as exigências desportivas do Benfica. Aí é que está o segredo. Isso deu-me logo para perceber. Aliás, já sabia do nível deles, mas quis confirmar na prática.

R – Victor Andrade, um dos miúdos que referiu, foi cobiçado pelo Barcelona, veio para o Benfica e está na equipa B. Tem valor para fazer parte da equipa principal no futuro?

Júlio César foi considerado uma ou duas vezes o melhor do Mundo e aos 35 anos não é velho

JJ – O Victor Andrade é um jovem brasileiro de 18 anos. Os portugueses com essa idade estão em formação, como ele, ainda num nível de aprendizagem que encerra muitas dificuldades. O Victor Andrade está a experimentar os mesmos problemas que um jovem português quando sai dos juniores. Mas se os nossos têm essas dificuldades, ele ainda tem mais, porque os treinadores portugueses são melhores que os brasileiros a trabalhar em termos táticos. Tem que se lhe dar tempo. A formação de um jovem demora o seu tempo. Normalmente demora três a quatro anos, mas há exceções. Foi o que aconteceu com o André Gomes. Demorou dois/três anos a atingir o patamar de exigência que o Benfica teve na última época.

R – A integração do André Gomes foi sempre gradual, e feita na presença do “núcleo duro”. Jogadores como César ou Benito foram obrigados a grande desgaste na pré-temporada porque não havia outros. Não terão saído prejudicados desse processo?

JJ – Eles não foram prejudicados. A equipa é que podia ter ficado, porque não tivemos na pré-época segundas soluções para dar descanso a alguns desses jogadores que competiram de dois em dois dias. Mas para mim, em termos de ganhar um conhecimento mais rápido sobre os jogadores que queria para formar o plantel, foi melhor.

Tínhamos alvos definidos, mas quando não há capacidade financeira, normalmente não se contrata a primeira opção

R – Casos como os do Djavan, Luís Filipe e Candeias. Foram más contratações?

JJ – Não. Vamos ver, quando se escolhe um jogador há vários critérios. A qualidade do atleta mas também o aspeto financeiro. Se pudermos contratar jogadores de 20, 30 ou 40 milhões dificilmente falhamos. Mas mesmo assim também podemos falhar. Agora, quando se tem de contratar em campeonatos pouco conhecidos, de equipas em que esses mesmos jogadores estão praticamente a aparecer, vai-se no risco. Porque é preciso ir naquele momento, se demorarmos tempo pode perder-se a hipótese. Umas vezes consegue-se acertar, mas há outras em que se falha. Mas o importante é ter a consciência que aquele jogador tem o nível para fazer parte das exigências do Benfica. Depois, aqui a trabalhar com ele, vimos se na realidade é assim ou não. Porque há componentes que não são conhecidas. Podes conhecer a componente física ou técnica, mas não conheces a psicológica porque nunca trabalhaste com ele. E isso é muito importante. Também desconheces a formação tática desse jogador. Só se começa a conhecer esse lado quando se trabalha com ele. Como coloco essas exigências num nível muito alto, a alguns jogadores que chegam temos de dar tempo, temos de os colocar noutros clubes para se adaptarem, para crescerem. Fazemo-lo porque acreditamos neles, acreditamos que depois podem voltar ao Benfica.

R – Em que momento da pré-temporada toma consciência que vai ter de apostar em alguns suplentes do ano anterior, e com isso passar a ter uma segunda linha mais fragilizada?

JJ – Nunca pensei nisso, porque eu, o presidente e o Rui tínhamos, nessa altura, uma estratégia para o mercado. Sabíamos que ainda precisávamos de contratar entre dois e quatro jogadores, mas queríamos fazê-lo mesmo no limite do prazo. Não nos queríamos precipitar e aceitámos arriscar até ao último dia. Foi assim que chegámos ao Samaris, ao Cristante, ao Júlio César e ao Jonas. Jogámos nesse limite do risco.

R – Esses jogadores eram alvos definidos ou foram oportunidades de mercado?

Meter os miúdos a competir com tanta intensidade dá para perceber a que nível é que eles estão

JJ – Tínhamos alvos definidos, mas quando não tens capacidade financeira, normalmente nunca consegues contratar a tua primeira opção. Quando dás por ela já se vai na quarta ou na quinta opção.

R – Uma dessas opções no fecho do mercado foi Júlio César. Na questão dos guarda-redes ficou a ideia de ter existido algum descontrolo na gestão das escolhas. Até Karnezis chegou a estar em Lisboa e não assinou...

JJ – O Júlio César esteve sempre na lista das prioridades. Já no ano passado pensámos nele, só que não houve capacidade financeira para o adquirir. Este ano houve essa possibilidade e avançámos. O currículo do Júlio não deixa dúvidas a ninguém. Foi considerado uma ou duas vezes como o melhor guarda-redes do Mundo e com 35 anos não é velho. Em Itália e Inglaterra há guarda-redes com 38 e 39 anos, portanto ainda tem muitos anos para poder ser útil a qualquer equipa.

R – Mas este arranque dele no Benfica está a ser marcado por problemas físicos...

JJ – Quando decidimos contratá-lo, o nosso departamento médico fez-lhe um cadastro clínico que não apresentou nada fora do normal. O que está a acontecer é consequência disto: quando acabou o Campeonato do Mundo entrou completamente em férias, “abancou”, como se costuma dizer. Nunca mais fez nada em termos de treino. E as exigências que tivemos com ele foram demasiado rápidas face ao momento físico em que se encontrava. Começou a sentir alguns problemas e esperemos que agora, com esta paragem, possamos dar-lhe algum suporte físico para não voltar a ter os mesmos problemas. Porque a qualidade técnica está lá, ninguém tenha dúvidas.

«Talisca fez-me logo lembrar o Rivaldo»
BRASILEIRO CAUSOU BOA IMPRESSÃO NA PRIMEIRA OBSERVAÇÃO REALIZADA
 
R – Em que posição pensa que Talisca pode vir a fixar-se no futuro? Como avançado, no lugar de Enzo Pérez ou em outra...

JJ – O Talisca vai ser um número 10 ou um 8. A posição dele no futuro será essa, tem umas condições atléticas em que até pode jogar como avançado. É curioso que li no Record uma crónica em que se escreveu que o Talisca era parecido com o Rivaldo. É uma analogia muito bem feita. As características do Talisca, física e tecnicamente, são muito idênticas às que o Rivaldo tinha. Aliás, foi por isso que pedi que o fossem buscar. Assim que vi este miúdo lembrei-me logo do Rivaldo. Pode fazer posição de primeiro avançado, de número 11, de número 8 e de número 9. Comigo pode fazer quatro posições, com os outros não sei...

R – E são essas características do Talisca que pensa gerir jogo a jogo, em função dos adversários? Ou será melhor fixá-lo numa posição para facilitar o processo de integração?

Pode fazer posição de primeiro avançado, de número 11, de número 8 e de número 9

JJ – Ele vai ser gerido naquilo que for melhor para a equipa. Se entender que a equipa precisa dele como primeiro ou segundo avançado, será aí que jogará. Quando entender que a equipa precisa dele como 11, será aí que jogará e se entender, como entendi frente ao Arouca, que deve jogar na posição do Enzo, jogará aí. Será sempre em função daquilo que for melhor para a equipa, não para ele.

R – Outro jogador que está a ser treinado para jogar no lugar de Enzo é Pizzi, que já entrou frente ao Arouca...

JJ – Exatamente. Mas o Pizzi é um jogador completamente diferente do Enzo e do Talisca. Dos três, o Talisca é o goleador, por isso é que já tem 6 golos. Os outros são mais organizadores. O Talisca chega mais ao golo. São três jogadores diferentes, mas que podem fazer várias posições.

R – O Talisca ainda está a fazer algum tipo de trabalho específico de fortalecimento muscular?

JJ – Não, isso parou. Agora está a fazer um trabalho específico mais de componente tática.

«Adaptação de Samaris e Cristante tem sido difícil pela minha exigência»
TÉCNICO E O PROBLEMA NA POSIÇÃO 6
 
R – André Almeida pode ser boa opção para jogar na posição 6 (ou 4 como prefere)?

JJ – Pode. O André Almeida foi alternativa quando tivemos Fejsa e Ruben Amorim lesionados. Se alguém o conhece bem sou eu. Fomos, quando estávamos no Belenenses, buscá-lo aos juniores do Alverca. Ele começa a formação como médio-ala, como 7. Nos juniores do Belenenses passa a médio-defensivo e nos seniores, quando eu já não estava lá, começa a ser utilizado como lateral-direito. Ele tem conhecimento de várias posições e isso ajudou-o a crescer como jogador. Faz muito bem a posição 6. Tem alguma dificuldade no passe, e naquela posição tem de ser um jogador de passe fácil, mas tem algumas coisas melhores que os outros. No entanto, para essa posição contratámos o Samaris e o Cristante e serão eles a discutir o lugar. Mas se tiver de recorrer ao André Almeida, recorro e ficarei tranquilo.

R – Como tem sido o processo de adaptação de Samaris e Cristante à posição 6?

JJ – Tem sido difícil porque é o posicionamento em que exijo maior conhecimento tático do jogo. Exijo ao jogador dessa posição o que os outros não sabem exigir, por isso é que saem daqui para os grandes clubes do estrangeiro. Chegam lá e até dizem como é que é. Quando chegam aqui, jogam nessa posição e não sabem nada dela. Não sabem, vamos lá ver, porque a minha ideia é diferente, a minha exigência é outra, e por isso demora mais tempo a perceber. O Cristante e o Samaris ainda estão muito longe, em termos defensivos, daquilo que o Ruben Amorim faz, que o Fejsa ou o Matic faziam. Bom, o Javi, quando chegou ao Benfica, não sabia nada, como também não sabia o Matic.

R – Acredita que ambos conseguirão atingir esse patamar de exigência?

Matic teve maior facilidade por estar um ano a jogar atrás do Javi. Esta época perdemos todos os médios-defensivos

JJ – Claro que sim, só que o Matic, por exemplo, teve uma maior facilidade, por estar uma época a jogar atrás do Javi. Este ano perdemos todos os médios-defensivos: o Matic transferido, Fejsa e Ruben lesionados. Ficámos sem uma referência para os que estavam a chegar e assim é mais difícil trabalhar.

R – Cristante não seria um bom 8?

JJ – Para mim nunca o seria. Não tem velocidade para ser um 8, seria sempre um médio de contenção. Pode fazer as duas posições, tal como o Samaris, mas onde pode vir a render mais é a 6.

R – Falava, em relação ao André Almeida, na questão da necessidade do passe fácil. Ora, nos jogos da Liga dos Campeões os passes falhados nessa zona foram muitos e frente ao Zenit estiveram na origem dos golos contrários. Não pensou alterar a saída de bola, com lançamentos longos por exemplo?

JJ – Temos uma ideia de jogo e não temos de mudá-la só porque se trata da Champions, apesar de nessa competição se ter de mudar muita coisa. A propósito disso, acho piada ao facto de dizerem que este ano estou a ignorar a Champions. Não é por acaso que no ranking da UEFA, por força dos jogos da Champions e da Liga Europa, o Benfica é a quinta equipa. Porquê? Porque ao longo destes cinco anos tem obtido resultados para estar nessa posição. Mais pela Liga Europa, é verdade, mas também fomos aos quartos-de-final da Champions. Hoje o Benfica quando joga nas provas da UEFA os nossos adversários dizem: vamos defrontar uma das melhores equipas da Europa. Um finalista da Liga Europa. Isto não é por acaso.

«Ideia de que não aposto em jovens é errada»
A QUESTÃO DA FORMAÇÃO
 
 
R – Jorge Jesus é um treinador criticado pela escassa aposta em jovens da formação...

JJ – Essa é uma ideia completamente errada. Como não aposto? O que é a formação? São os jogadores que só estão no Benfica? Para mim não! Formar é trabalhar jovens, sejam eles portugueses, chineses, brasileiros... Tem 18, 19 anos? É formação. Markovic tinha 18 anos, vendido por 30 milhões [ndr: foi vendido por 25 milhões]; André Gomes, 20 anos, vendido por não sei quantos milhões; Rodrigo, vendido por não sei quantos milhões; Oblak, 20 anos, vendido por não sei quantos milhões. Digam-me um treinador no Mundo que faça isto! Isto é formação. Agora se é chinês, português isso não me interessa. Formo jogadores e não nacionalidades.

R – Então o que falta para aparecerem mais jogadores da formação do Benfica na equipa principal?

JJ – Claro que os mais jovens não têm os mesmos conhecimentos de jogo que os jogadores mais experientes. As exigências de um patamar para o outro são grandes, mas há jogadores que não sentem tanto essa dificuldade. O Markovic não a sentiu, tal como o Talisca, o André Gomes ou o André Almeida. Não se esqueçam que fui buscar o André Gomes e o André Almeida à equipa B. Demoraram dois anos, sempre a jogar, quer na Champions quer na Liga, até chegarem à Seleção. O André Almeida foi internacional, tal como André Gomes, que até foi transferido. E o Valencia não o comprou por aquilo que o viu jogar nos treinos, mas sim nas provas europeias e na Liga portuguesa. A evolução deles em dois anos foi um processo muito rápido. Normalmente demoraria três ou quatro anos.

«Apelo do estrangeiro pelo sonho de vencer a Champions»
TRABALHAR FORA PARA CUMPRIR UMA AMBIÇÃO
 
R – Ainda tem o sonho de ganhar a Champions pelo Benfica? Ou é nesse ponto que sente o apelo de ir para o estrangeiro, para a tentar conquistar?

JJ – É... em Portugal é difícil. No Benfica até nem era muito difícil, mas há outros valores que se levantam. Para irmos a uma final da Champions é preciso estar três anos num clube que financeiramente possa comprar e não vender. Nesse espaço de tempo constrói-se uma equipa para ir a uma final da Liga dos Campeões. Em Portugal não há essa hipótese. Os clubes portugueses têm de vender todos os anos. Imaginemos que nestes seis anos o Benfica, em três, não teria vendido. Esse leque dava-me capacidade para ir a uma final da Champions. Mas em Portugal somos vendedores e temos de perceber isto. Todos os países olham para Portugal como o país que melhor forma e vende. Seria bom se todas as áreas conseguissem acompanhar esta qualidade do dirigente, jogador, treinador e agentes desportivos, como jornalistas e adeptos. Todos ajudam a formar esta qualidade.

R – Pelas suas palavras depreende-se que um clube português dificilmente vencerá a Champions nos próximos anos. É por isso que não está a dar mais importância à competição? Pelo menos acusam-no disso...

JJ – Não estamos a ignorar a Champions, só que o primeiro jogo não nos correu bem, no segundo jogo o adversário tinha um conhecimento muito profundo da nossa equipa e fez 45 minutos muito fortes. Na Champions, jogamos com equipas ao nosso nível ou acima do nosso nível. Portanto, umas vezes vamos ter capacidade e noutras não, porque os outros são melhores. É a realidade.

«Paulo Bento precipitou-se na renovação; Fernando Santos foi a melhor opção»
UM OLHAR SOBRE A SELECÇÃO NO DIA DA ESTREIA DO NOVO SELECIONADOR
 
 
R – Fernando Santos vai estrear-se à frente da Seleção. É, nesta altura, a melhor opção?

JJ – Acho que sim, é a melhor opção. Claro que havia outros treinadores com essa capacidade, mas ele vem de uma seleção [Grécia] que esteve no Campeonato do Mundo, não estava a trabalhar e é um treinador que conhece muito bem o futebol português. Penso que se juntaram aqui vários fatores. Temos jogadores com muita qualidade. Penso que o Paulo foi muito atrás de opiniões públicas ou das exigências de renovação.

R – Foi precipitado?

JJ – Foi! Acho que se precipitou. O Fernando não está a fazer nada disso, está a escolher os melhores para poder ser apurado para o Campeonato da Europa e era o que o Paulo tinha de ter feito. Foi muito atrás de exigências não sei de quem, que o prejudicaram.

«André Gomes vai ser um grande jogador»
CONFESSA ADMIRAÇÃO PELO MÉDIO DO VALENCIA
 
R – André Gomes está a ser um dos grandes protagonistas da Liga espanhola. Surpreende-o?

JJ – Falei com o André e disse-lhe: “Vais embora no teu melhor ano, andei dois anos a ensinar-te e este já tens mais conhecimento das coisas.” Vocês não imaginam o que trabalhei ou trabalho com os jogadores individualmente para terem outras performances de evolução, técnica e física. O que ensino não vem nos livros. Não estou a dizer que sou melhor do que os outros, ensino é à minha maneira. E sei que não é igual à dos outros. O que ensinei ao André, recuperações, saber correr atrás da bola e do jogador... é muito complexo. Também tem a ver com o jogador e o André é superinteligente. Isto é como na escola, há uns que andam vários anos para tirar o 12.º ano, outros não, fazem-no em pouco tempo. Está a subir cada vez mais e vai ser um grande jogador como segundo médio.

R – No momento de forma em que estava Enzo Pérez na época passada, era difícil André Gomes tirar-lhe o lugar...

JJ – Era, claro que sim! O Enzo estava numa superforma. O conhecimento não é o mesmo, o André também aprendeu muito com o Enzo. O André Almeida e o André Gomes têm uma facilidade que outros jovens da formação não têm. Com 19 anos um tinha 1,87 m e outro 1,84 m. E há muitos jogadores que têm muita qualidade técnica mas não têm capacidade atlética para corresponderem naquele momento. Por isso é que o processo foi mais rápido. O Cristante, por exemplo, pode ser igual, porque tem 19 anos e 1,88 m, ou seja, fisicamente já é um homem.

«Melhor amigo é o servidor que tenho em casa»
JOGADORES SEM SEGREDOS
 
 
R – O icoach é uma espécie de melhor amigo?

JJ – A aplicação? Não. O melhor amigo é o servidor que tenho em casa, só preciso saber qual o clube do jogador, o nome e que no país onde joga existam transmissões televisivas. É assim que os conheço na China. Se no Afeganistão existirem jogos e derem jogos na televisão, também os vejo.

«Pizzi ainda é frágil defensivamente»
JOGADOR TEM DADO BONS SINAIS NOS TREINOS
 
 
R – Frente ao Arouca estreou-se o Lisandro a titular, o Pizzi foi utilizado e o Nélson Oliveira esteve a fazer exercícios de aquecimento. Sinal que estão a ficar mais próximos daquilo que pretende deles...

JJ – Claro que sim. O tempo de treino vai dando aos novos jogadores uma melhor noção daquilo que são as ideias de jogo do Benfica. Também é verdade que neste jogo com o Arouca o Pizzi entrou no melhor momento da equipa. Estávamos a ganhar, havia mais espaço e isso torna o jogo mais fácil. Ele tem dado bons sinais ao longo da semana e o treinador tem de basear-se naquilo que é o trabalho semanal dos atletas, esse é o primeiro fator para a escolha. O Pizzi reúne algumas qualidades, mas defensivamente ainda é frágil. Acreditamos que ele vai conseguir chegar lá.

«Nélson Oliveira pediu-me para ficar»
 REVELAÇÃO FEITA PELO TREINADOR ENCARNADO
 
 
R – O que se pode esperar de Bebé, Jara e Nélson Oliveira?

JJ – O Tiago, que é o Bebé, nunca teve formação. Aparece tarde no futebol. Foi para Inglaterra, onde nunca jogou, e perdeu muito tempo, na minha opinião, no crescimento como jogador. Vem para Portugal, joga no Rio Ave, depois faz um campeonato interessante no Paços. Foi quando vimos que ele tinha algumas qualidades interessantes para ser um jogador de futuro no Benfica. O processo de evolução do Tiago é igual ao do Talisca, do Matic, do André Gomes, todos esses jogadores jovens. Para aquilo que é a minha exigência... ainda é pouco. O Nélson, bom, não há muitos avançados em Portugal para a Seleção. É dos poucos que está numa idade em que pode projetar-se. O Nélson saiu das minhas mãos há três anos e... fez um mea culpa. Pediu-me por tudo para trabalhar comigo este ano, para continuar a ajudá-lo no crescimento. Depois é preciso perceber que ele andou a jogar um ano lesionado em França. Aqui curou-se completamente. O departamento clínico do Benfica, que é espetacular, pô-lo clinicamente apto. Agora vai ter de apanhar o comboio. Não é fácil. Tenho Derley, Lima, Jonas, Franco (Jara) e também ele para lutar, normalmente, por dois lugares. Três ficam à espera, mas há muita competição, muitas provas, e o Benfica vai precisar de todos os jogadores, como aconteceu no ano passado. Ele já esteve no banco, foi um bom sinal e de certeza que este ano fará jogos no Benfica.

«Gosto de ver jiu-jitsu mas vale tudo»
FILHOS PRATICAM MODALIDADE
 
 
R – Teve dois filhos ligados ao râguebi e agora estão virados para as artes marciais. Já viu algum combate deles?

JJ – O meu filho mais velho é mestre de jiu-jitsu, teve uma lesão muito grave e foi operado. O mais novo seguiu as pisadas do irmão. Nasceram para a luta. Gosto de ver, mas é muito agressiva, vale tudo.

R – Conseguia vê-los lutar em competição?

JJ – Eles não seguiram uma carreira profissional, isso não é um meio de vida deles, é só um meio desportivo que eles adoram. Um é professor e o outro está a estudar para ser arquiteto.

O QUE É:

"O jiu-jitsu é considerado a base de vários combates e não pode ser considerado uma arte marcial isolada, mas sim um conjunto de artes marciais japonesas. Foi, aliás, no Japão que teve o seu desenvolvimento, nas escolas de Samurais, não havendo certezas em relação ao seu aparecimento.

Tem como técnicas principais os golpes de alavancas, torções, imobilizações e pressões para derrubar o adversário. Foi criado para que, nos campos de batalha, ou numa situação de adversidade, um samurai pudesse , sem espadas ou lanças, defender-se de forma eficiente.

No jiu-jitsu usa-se a força própria e a do adversário, o que permite que um oponente, mesmo que fisicamente mais pequeno, possa vencer. No chão, com técnicas de estrangulamento e pressão sobre articulações é possível fazer com que o adversário desista da luta, fazendo-o desmaiar, quebrando-lhe uma articulação."

«Evolução do futebol passa pela mudança de sistemas»
 MAIS UMA IDEIA...DIFERENTE
 
R – Derley, Jonas e Talisca. Nenhum destes jogadores dá à equipa aquilo que o Rodrigo dava. São diferentes. Com isso, a ideia do jogo ofensivo do Benfica alterou-se. As mudanças estão a dar os resultados pretendidos?

JJ – São jogadores com características diferentes do Rodrigo. Essa abordagem está bem feita em função da ideia de jogo do Benfica. O Derley e o Jonas são muito parecidos, são jogadores mais de posição, de atuar entre os centrais. O Lima era isso quando chegou ao Benfica, depois é que se tornou mais móvel e assim continuará a ser. O jogador nasce com aquilo que nasce e o treinador tem de percebê-lo. Mas os jogadores, a maioria deles, têm de adaptar-se às minhas ideias e fazer aquilo que quero. Para mim não é um problema porque mudo essa ideia de jogo.

R – Era aí que queríamos chegar. Essa alteração já é visível...

Derley e Jonas são jogadores mais de posição. O Lima era isso, depois é que se tornou mais móvel

JJ – Sim, já é visível. Jogámos na Alemanha, frente ao Bayer e, dá-me até um certo gozo, quem fez a análise do jogo disse que o Benfica tinha jogado com o sistema habitual de dois avançados o que é mentira. Jogámos em 4x3x3, mas como coloquei um jogador [Talisca], que normalmente é avançado, a fazer outras coisas, já não tiveram capacidade de observação.

R – Isso significa que o sistema de jogo do Benfica pode vir a ser alterado para 4x3x3?

JJ – O Benfica comigo nunca teve um sistema definido. Claro que há um mais visível, quando jogo com dois avançados. Já disse isto no fórum da UEFA na Suíça: a evolução do futebol será cada vez mais como a das outras modalidades coletivas, ou seja, durante um jogo entras com um sistema, mudas para outro e se depois tiveres de voltar a alterar para um terceiro, também o fazes. Esta vai ser a evolução do futebol, mas o Benfica já faz isto há muitos anos, anda à frente há muito tempo.

R – Há um ano, com Rodrigo e Lima, a equipa tinha a movimentação horizontal dos avançados e ambos faziam muitos golos. Com Talisca, que é mais vertical, de entrada no espaço central, o Lima não estará a ser “prejudicado”?

JJ – Não, porque só mudei essa ideia de jogo no ano passado. O Benfica nos quatro anos anteriores jogou sempre com um avançado de referência na área e outro de maior mobilidade. Só quando tirei o Cardozo da equipa, há um ano, é que mudei o posicionamento dos avançados. Mas há jogos em que mantenho a mesma ideia, tem muito a ver com a estratégia para cada desafio, com o tipo de adversário. Para mim não há um sistema. As pessoas falam muito em 4x4x2, 4x3x3, 5x3x2, seja o que for. Não há um sistema perfeito, não há o melhor, há é aquele que cada treinador considera melhor para ele. O sistema é a base de tudo. Mas quem faz a diferença é quem sabe trabalhar em cima do sistema que escolher.

«Os meus filhos dão-me cada 'abada’ na PlayStation...»
 NEM ASSIM GANHOU AO BENFICA
 
 
R – Uma vez, após um jogo, disse que ganhar ao Benfica só na PlayStation. Já alguma vez foi campeão no PES ou no FIFA?

JJ – Não jogo isso. Nem gosto. Os meus filhos às vezes jogam e dão-me cada “abada”... É tudo muito diferente da realidade.

R – Jorge Jesus arriscou muito para ser futebolista, mas acabou por encaminhar os seus filhos para tirarem cursos superiores...

JJ – Não se trata de querer ou não estudar. Um miúdo que jogue no Benfica, Sporting ou FC Porto é praticamente semiprofissional. E não consegue ter o equilíbrio de estudar, porque trabalham todos os dias de manhã. O que me acontecia era que quando ia estudar estava cansado, com sono. Há uns que conseguem, mas são espertos, são aqueles que dizem “aqui não vou chegar lá, vou agarrar-me aos livros”.

R – Teve a preocupação de aconselhá-los a seguirem outro caminho...

JJ – Porque não tinham jeito nenhum para jogar futebol. Os pais, normalmente, fazem dos filhos um totoloto, porque gostavam que dessem jogadores. Eu vi logo que não tinham jeito nenhum e disse-lhes para procurarem outra modalidade, onde pudessem jogar mais vezes, que fosse interessante socialmente e onde soubessem o que é responsabilidade. E foram ambos para o râguebi, modalidade que praticaram durante muitos anos.

«Bimby? A panela de pressão onde se mete tudo»
GOSTAVA DE SABER COZINHAR PARA AMIGOS
 
 
R – Sabe o que é uma Bimby?

JJ – A Bíblia?

R – Já vimos que não cozinha...

JJ – Ah! A panela de pressão onde se mete tudo! Ouço a minha mulher falar nisso, agora não sei fazer um ovo estrelado. Nunca o fiz na vida. Não sei fazer um bife. Gostava de saber cozinhar, de ter o prazer de o fazer para os amigos. Mas não sei. Tive uma mãezinha que se visse um filho a lavar um prato de sopa, dizia logo: sai daí filho, que isso não é para ti. É verdade...

«Escolhia Di María para não sair»
 
 SELEÇÃO DE TRANSFERÊNCIAS ENTRE EX-JOGADORES
 
 
R – Agora um exercício: dos jogadores vendidos na era Jorge Jesus, há um que não sairia do Benfica. Quem seria?

JJ – Uma pergunta inteligente e que nunca me fizeram. Eles são tantos que até posso esquecer-me de algum...

R – Record ajuda numa seleção: Oblak, Ramires, Garay, David Luiz, Coentrão, Javi, Matic, Witsel, Markovic, Di María, Rodrigo e Cardozo...

JJ – Aquele que é mais difícil reunir características como a técnica, velocidade, o facto de ser um miúdo espetacular no dia a dia a trabalhar... se calhar vou ser injusto, mas digo o Di María.

R – E agora a pergunta ao contrário: há algum dos contratados que tenha saído com Jorge Jesus a pensar que podia ter chegado mais longe? Algum deixou um sentimento de frustração?

JJ – Por falta de espaço? Alan Kardec. É o melhor avançado do Brasil, neste momento!

R – O que falhou?

JJ – Não falhou nada no Kardec. Quando fomos buscá-lo ao Brasil tinha 18 anos e apanha Aimar, Saviola, Cardozo, Rodrigo em grandes momentos do Benfica. Ele foi crescendo connosco. Precisava de tempo. E tanto assim é que foi vendido por 4 milhões de euros e custou um milhão, um milhão meio.

Fonte: Jornal Record
 

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