domingo, 21 de setembro de 2014

Ganha o... Benfica!

PRESSÃO ALTA

 
A polémica entre José Mourinho e Jorge Jesus não tinha mais nada a dar, para além daquilo que já havia dado, ainda antes da expectativa criada à volta da resposta que o treinador do Benfica poderia dar na conferência de imprensa de ontem: a confirmação do valor de Talisca, um jovem com 20 anos recém-chegado à Luz e ao futebol português, agora beneficiário do “certificado de qualidade” passado por dois competentíssimos técnicos portugueses, cada qual com as suas características bem diferenciadas, oriundos de “escolas” diametralmente opostas, talvez o tema de fundo que deva ser suscitado e analisado, à margem de questiúnculas pessoais, egos mal resolvidos, folclores associados à génese de uma indústria que também vive destes minifolhetins ou piquinhos de inveja muito típicos da idiossincrasia lusa. Como a polémica já havia dado tudo o que tinha a dar, Jorge Jesus foi realista e fez muito bem em recuar, porque sabe que está em clara desvantagem perante José Mourinho em dois aspectos essenciais: na carreira e no currículo e, também, no aspecto da comunicação.


Não creio que Jesus saiba menos de futebol (metodologia, treinos, preparação dos jogos e dos jogadores, cultura táctica, etc.) comparativamente a Mourinho, mas não há que subverter as realidades: o treinador do Chelsea disparou para uma carreira internacional a todos os títulos notável, a partir do sucesso que teve no FC Porto, numa dinâmica que envolveu, em 2004, a “máquina” portista, Jorge Mendes e o dinheiro de um magnata com sede de afirmação, Abramovich, capaz de pagar o que fosse necessário para colocar o clube de Stamford Bridge na rota dos poderosos; ganhou campeonatos em todos os países em que trabalhou (Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha) e conseguiu conquistas europeias relevantes (Champions e Taça UEFA). Jorge Jesus, ao invés, chegou tarde ao primeiro plano do futebol português e foi no Benfica que conseguiu os dois títulos de campeão nacional conquistados até ao momento, para além das duas finais europeias (Liga Europa) que jogou e perdeu e que, por isso, não contam para quase nada.


Sou capaz de adivinhar o seguinte pensamento de Jesus: “Se tivesse os mesmos meios colocados à disposição de Mourinho, fosse em que país fosse do Mundo, teria alcançado as mesmas conquistas ou, se calhar, até teria conseguido mais êxitos, principalmente nestas duas últimas épocas.” A vida e o futebol, contudo, não são feitos de “ses”. As realidades e os factos é que contam. E esses apontam para uma supremacia enorme de José Mourinho, o treinador português mais titulado de todos os tempos.


Há outro campo em que Mourinho dá cartas: na área da comunicação. Sente-se como peixe na água e não precisou de spin doctors para se transformar num especialista em “mind games”. Travou muitas batalhas, neste domínio, com adversários, umas mais necessárias do que outras, enfrentou adversários externos e internos, tudo para alcançar ou a correspondente emulação psicológica (todos os jogos têm a sua dimensão psicológica) ou mais um quinhão de poder. Não me parece, contudo, que tenha sido feliz na forma como quis atingir Jorge Jesus, com a referência aos “pontapés na gramática”, até porque a alusão ao D’Artagnan tinha sido para questionar a visão da estrutura do Chelsea, em relação a Talisca, sem nenhuma referência a Mourinho, e este respondeu de uma forma brutal e pouco “universitária”...


Bem sei que, no futebol-negócio, Mourinho é um poder, construiu (com indiscutível mérito) uma máquina à sua volta que gera muito dinheiro e, no caso de Jorge Jesus, o maior apoio que pode ter é do Benfica e dos benfiquistas, que neste aspecto também fica a meio da ponte porque o negócio, nas suas mais diferentes facetas, está muito para além de Jorge Jesus e daquilo que ele hoje representa na Luz. Quero eu dizer que o Benfica deveria ter sido rápido e diligente na defesa do seu treinador. Até porque está em causa a defesa de quem escolhe, potencia e rendibiliza financeiramente os jogadores e, em tese, o “scouting” do Benfica. Este silêncio é o silêncio de quem percebe a força de Mourinho e aquilo que ele, directa ou indirectamente, representa. Fica a certeza de que, no futebol, a formação dos treinadores não deve dispensar nem o estudo e o conhecimento teórico nem o lado empírico. E as lições estão sempre ao dispor de quem tem a faculdade de ser humilde. Escreveu Ernest Hemingway que “o segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento é a humildade”. Nada mais certo.


Nota: Paulo Bento concedeu ontem a primeira entrevista pós-rescisão, na qual ficou clara a incomodidade do ex-seleccionador nacional em relação a Cristiano Ronaldo – ele que tinha sido escolhido, pelo seu fraco currículo, como alguém capaz de sustentar e afirmar “o melhor jogador do Mundo” no espaço da Selecção, sem qualquer tipo de controlo ou exigência. Mel transformado em fel. Sem surpresa. O herói convertido em anti-herói. Agora dói?!


JARDIM DAS ESTRELAS - ****


Que Faria como líder?


Entre os vários temas que José Mourinho decidiu abordar nas suas mais recentes entrevistas (Chelsea, futebol inglês, Real Madrid, futebol português, Selecção Nacional) houve um ponto que deve ser realçado: o elogio a Rui Faria, o seu braço-direito ao longo de quase 15 anos de colaboração estreita e activa – e sempre silenciosa. Muitos dos créditos que Mourinho recebe, com toda a naturalidade, porque é o líder, são devidos ao trabalho de grande qualidade de Rui Faria, agora também reconhecido, e de uma forma clara, pelo Special One. Está chegado o momento de Rui Faria se emancipar, porque toda a experiência que bebeu até hoje precisa de ser testada e potenciada num exercício de liderança.


O CACTO


Maurício


O Sporting não percebeu que não poderia regressar à Champions, com um mínimo de condições de fazer uma carreira aceitável, sem reforçar a equipa nas suas posições mais fracas. E uma dessas posições – há muito identificadas – reside na zona central da defesa. Bruno de Carvalho e Inácio entenderam apostar na contratação de jovens jogadores estrangeiros, em vez da opção por contratações cirúrgicas, através de futebolistas mais experientes e para responder no imediato. Aquele corte de Sarr e a rosca de Maurício, em Maribor, foram a expressão máxima do logro.
Rui Santos no jornal record

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