segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Entrevista com José Mourinho

Aos leitores deste humilde 'chaminé':
Aqui fica a entrevista de José Mourinho, hoje, no Jornal Record.

«Sporting mostrou ambição»
TÉCNICO DO CHELSEA ELOGIA ATUAÇÃO DO SPORTING DIANTE DO FC PORTO

José Mourinho chegou com a pontualidade dos britânicos. Antes da hora combinada, já ele entrava pelo Harbour Chelsea Hotel, a unidade 5 estrelas de luxo onde os blues se concentram quando jogam em Stamford Bridge e sempre que o encontro se realiza ainda à luz do dia, quebrando, assim, o hábito de não fazer estágio antes dos jogos que disputa em casa para as competições internas.

O técnico português vem de fato de treino e carrega num cabide o fato oficial do Chelsea. Exibe um sorriso, cumprimenta a equipa do Record, como se ontem se tivesse cruzado connosco, e pede-nos para esperarmos cinco minutos.

A entrevista ficou marcada para o dia do Sporting-FC Porto, véspera do Chelsea-Aston Villa. Mourinho acabou por acompanhar o clássico à distância (Silvino e outro elemento do staff estiveram em Alvalade) mas ontem, como ele próprio referiu, dedicou “uma matiné a estudar” os leões.

Foi evidente que a equipa quis ter a iniciativa e demonstrou que queria ganhar o jogo


Descemos um andar e instalamo-nos numa sala ampla, já preparada para as refeições da equipa e palestras dos técnicos. A vista para a marina privada do hotel convida a dar um pulo à varanda só para tirar partido dos raios de sol que iluminam e aquecem Londres. Ao contrário do que é habitual, a capital inglesa ainda desfruta de um verão surpreendente.

Não é por isso, no entanto, que José Mourinho se diz “feliz, mesmo muito feliz” nesta sua segunda vida no Chelsea. Mas o brilho dos seus olhos e o sorriso franco e aberto estão em sintonia com a inesperada luminosidade londrina.

A conversa foi longa (quase duas horas) e ficou por concluir após o Sporting-FC Porto. Mourinho mostrou total disponibilidade, apesar de o apertado calendário do Chelsea obrigar a que cada minuto partilhado com o grupo seja aproveitado ao... segundo.

Um bom Sporting

Sem temas tabu, embora claramente mais disponível para falar mais de uns do que de outros, Mourinho comentou “a posteriori” o clássico de Alvalade.

“Vi um bom Sporting”, declarou o treinador que hoje chega a Lisboa e amanhã estará de regresso a Alvalade para defrontar os leões.

O Sporting esteve melhor na primeira parte do que na segunda, mas foi sempre um bom Sporting


“O Sporting esteve melhor na primeira parte do que na segunda, mas foi sempre um bom Sporting”, sublinhou Mourinho, manifestando o seu agrado pela qualidade de alguns dos jovens jogadores sportinguistas, ao mesmo tempo que ficou impressionado com a atitude destemida, sem qualquer medo, dos leões.

A grande intensidade que a equipa de Marco Silva imprimiu no jogo frente aos dragões foi outra nota da exibição do Sporting que não passou despercebida a José Mourinho que, como toda a gente, constatou que a equipa não teve “pedalada” para aguentar o ritmo durante os 90 minutos.

No entanto, o que ficou na retina de Mourinho foi a atitude de um Sporting “a demonstrar ambição e a mostrar que queria ganhar”. Para o treinador do Chelsea “foi evidente que a equipa quis ter a iniciativa do jogo”.

O treinador considerou que o conjunto leonino “teve a possibilidade de fazer o 2-0, mas não marcou e na segunda parte, após o empate, o jogo baixou de ritmo”.

Apesar de insistir que viu “sempre um bom Sporting”, José Mourinho não deixou de observar um dos pontos fracos da equipa de Marco Silva: os centrais comprometem o esforço coletivo. Ainda assim, não foi pela boca do treinador do Chelsea que as orelhas de Maurício e Sarr ficaram a arder...
 
«Não ganhar em Alvalade e seguir na Champions? Assino já!»

TREINADOR ADMITE TODOS OS RESULTADOS MAS SUBLINHA A IMPORTÂNCIA DO JOGO DEPOIS DO EMPATE COM O SCHALKE
RECORD – Lembra-se da última vez que defrontou o Sporting?



JOSÉ MOURINHO – Sim, lembro-me da última, da primeira, da segunda... Só não me lembro da terceira ou da quinta.



R – Que recordações guarda dos confrontos com o Sporting?



JM – O primeiro não se esquece. Foi também o meu primeiro grande jogo como treinador, o Benfica-Sporting. O segundo foi um bocadinho atípico na minha carreira: foi viver os jogos contra os grandes do outro lado, ou seja, da equipa pequena, um Leiria-Sporting. E depois joguei várias vezes FC Porto-Sporting, nas Antas, no Dragão, no velho Alvalade e por último no novo estádio.



R – Sempre jogos tensos.



JM – Normal, normal. Quando são dérbis e clássicos, já se sabe, pois jogam-se pontos importantes, normalmente títulos. Têm aquela carga emocional. No caso do Leiria não se jogava nada disso, mas sim o orgulho dos pequenos. Foi bom para mim estar aqueles meses numa equipa daquela dimensão, para sentir coisas novas e que foram úteis para a minha carreira.

Durante o jogo, até me esqueço onde estou e com quem jogo. Mas antes e depois será diferente...





R – O seu último jogo em Alvalade teve incidentes, até com o atual selecionador Fernando Santos.



JM – O incidente maior aconteceu após um jogador [n.d.r.: Liedson] ter pedido para metermos a bola fora, nós fazermos isso e depois, quando estávamos à espera que nos devolvessem a bola, lançaram um contra-ataque rápido que deu o golo e o empate ao Sporting. Esse é o incidente que conta, que tem influência no resultado. O FC Porto ia à frente, mas se ganhasse ficaria praticamente campeão. É verdade que o empate não alterou a nossa estabilidade, mas na altura o Sporting era um candidato, tal como é agora, e aquele ponto poderia ter sido importante.



R – E que memórias tem dos tempos que esteve em Alvalade?



JM – As melhores, as melhores. Só tive uma má, que foi o dia em que soubemos que o Sporting ia rescindir e prescindir dos serviços do míster [n.d.r.: Bobby Robson]. Como consequência, acabámos também por sair uma ou duas semanas mais tarde. Era um projeto no qual as pessoas estavam de corpo e alma e o míster sentia que aquela equipa podia ser campeã. O Manel [n.d.r.: Manuel Fernandes], um sportinguista difícil de encontrar como ele, sendo o adjunto principal, o adjunto carismático, tinha todo aquela ambição de querer voltar a ver o Sporting campeão e eu era o “menino faz-tudo” e disponível para ajudar. Formávamos um grupo giro que acreditava que era possível. Não foi. Mas isso faz parte do futebol. O míster queixava-se na altura que tinha sido a primeira vez que fora despedido e nós dizíamos-lhe: “Míster, há sempre uma primeira vez. No futebol, treinador que não é despedido não é treinador. Encare isso com bom espírito”. E assim foi.



R – O Sporting de então era talvez uma das melhores equipas do futebol português?



JM – Era uma grande equipa! Uma equipa que tinha tudo. Uma aposta do clube e de um grande treinador naqueles jovens que tinham acabado de ser campeões do Mundo. O Sporting fez aquilo que não se faz muito e apostou forte naquelas duas gerações que tinham conquistado os títulos mundiais, o Filipe, o Luís [n.d.r.: Figo], o Peixe, o Paulo Torres. Depois tinha mais dois ou três estrangeiros que para o futebol português eram grandes, como o Balakov, e dois ótimos jogadores portugueses, o Paulo [n.d.r.: Sousa] e o Pacheco. Era uma excelente equipa.



R – É um regresso com um significado especial?



JM – Se me disseres que é igual jogar em Portugal um desafio da Champions ou jogar em Espanha ou França, não é seguramente a mesma coisa. Durante o jogo, sim, se calhar até me esqueço onde estou e com quem estou a jogar. Mas antes e depois será um bocadinho diferente. Mas no fundo, será sempre um jogo de Champions – e para mim já são tantos… Para o Sporting é o regresso a uma competição da qual está fora há uma série de anos. Para o sportinguista é juntar o útil ao agradável, ou seja, o regresso do seu Sporting e frente a uma das grandes equipas do futebol europeu. Estão, pois, criadas supercondições para ser uma grande noite.

R – Espera ser bem recebido?



JM – Sinceramente, não espero nem bem nem mal. Ser recebido com carinho especial pelos sportinguistas, não estou à espera, pois, de facto, não fiz nada pelo Sporting. Limitei-me à minha insignificância, no tempo em que lá estive limitei-me a ser o “faz-tudo” com todo o coração e o orgulho de trabalhar para o Sporting. Mas não fiz nada de importante no Sporting que justifique ser recebido com um carinho especial. Também não espero ser recebido com uma hostilidade particular, pois nunca deixei de demonstrar que tenho o maior respeito pelo Sporting e o orgulho de que um pedacinho da minha carreira tenha sido feita lá. Enfim, não estou à espera de nada de extraordinariamente positivo nem de nada de extraordinariamente negativo. Que seja o que as pessoas acharem que deve ser.



R – Que conhecimento já tem deste Sporting?



JM – Pouco, tenho preparada uma boa matiné de domingo [n.d.r.: ontem] para conhecer melhor o Sporting. Tenho visto jogos, não tenho estudado jogos. São coisas diferentes. Vejo isoladamente, e quando se proporciona, alguns jogos do futebol português. Desde que o Sporting nos tocou no grupo, já vi o encontro com o Belenenses com uns olhinhos um bocadinho diferentes.



R – Do que viu, o que é que lhe chamou mais a atenção?



JM – A ideia que tenho é que é uma equipa coerente. E quando digo coerente acho que estou a elogiar. Se alguém disser que a minha equipa é coerente no seu jogo e na sua estrutura, para mim é um elogio. Apesar de serem equipas e treinadores diferentes, acho que existe uma ligeira continuidade do ano passado para esta época, não só porque se mantiveram muitos jogadores mas também porque o próprio pragmatismo e estrutura me parecem similares. É uma equipa que tem bons jogadores e que considero que tem condições neste grupo para lutar pela classificação.



R – Não é um pouco irrealista pensar que pode lutar pelo 1.º lugar do grupo?



JM – Se me disser que o Chelsea e o Sporting vão jogar para o mesmo campeonato com 40 jornadas e que nós vamos terminar por cima do Sporting, eu digo imediatamente que sim. Mas uma coisa é uma prova de longa duração onde os melhores acabam por ditar a sua lei, outra coisa é um minicampeonato de seis jogos, e dentro dele dois serem entre os mesmos adversários. E neste sentido, futebol é futebol e a sua história está feita de tantos resultados inesperados, de tantas equipas que não se esperava que fossem eliminadas. Neste momento, não sabemos sequer se o próprio resultado da 1.ª jornada foi bom ou mau para o Sporting. Fiquei com a sensação que o impacto imediato foi de que tinha sido um mau resultado para o Sporting, mas veremos. Será mau se o Chelsea e o Schalke ganharem na Eslovénia; será bom, se isso não acontecer. O nosso resultado em casa com o Schalke é mau, pois numa competição curta, não ganhar em casa é mau. Por isso estarmos todos com os mesmos pontos é um indicador que está tudo em aberto.

A ideia que tenho do Sporting é que se trata de uma equipa coerente. Tem condições para se qualificar

R – Esse empate com o Schalke condiciona muito este jogo em Alvalade? Reforça a obrigação de o Chelsea ganhar ao Sporting?

JM – Uma coisa é querer e tentar, e outra é conseguir. São tantos anos na Champions, que não vale a pena entrar em pânico. Não o fizemos quando no ano passado perdemos em casa o primeiro jogo com o Basileia. Há um determinado número de pontos, que varia entre os 9 e os 11, que dão a qualificação e muitas vezes o primeiro lugar. Mas também depende se há muitos empates, se há uma equipa que faz zero pontos ou se a pior equipa do grupo ainda consegue somar dois ou três pontos. Enfim, tem de ser passo a passo. Obviamente, empatar em casa deixa-nos um bocadinho mais alerta, pois o segundo jogo passa a ser mais importante depois de não termos vencido o primeiro.

R – Anteriormente, o Chelsea tinha muitos jogadores portugueses e era fácil transmitir conhecimento de adversários do nosso país. Agora, só há na equipa técnica. Os seus jogadores perguntaram-lhe, a si ou aos seus adjuntos, sobre o Sporting?

JM – Na altura do sorteio, sim. Aqui tentamos meter os jogos em gavetas. Fechar e abrir gavetas, separar as coisas e não misturá-las. Eu próprio me recusaria a falar com eles sobre o Sporting antes de jogar com o Manchester City ou o Aston Villa. Mas na altura disse-lhes imediatamente que às vezes há uma ideia errada sobre o futebol português. Ideia errada que o Chelsea e os jogadores que sobrevivem dos anos anteriores não têm, pois jogaram com o FC Porto e o Benfica e não foi fácil. Agora vem o terceiro grande português, e seguramente também não vai ser fácil. A nossa liga não se vê muito em Inglaterra, pois os dois canais que aqui dão futebol não tem o campeonato português. Mais trabalho para mim...

R – É a terceira vez que vem jogar a Portugal e sempre pelo Chelsea (2004/05 e 2006/07) e nas duas com o FC Porto. Nunca ganhou…

JM – Mas consegui sempre os meus objetivos, que é mais importante do que vencer. Se me derem a possibilidade de não ganhar em Alvalade mas seguir na Champions, eu assino já. O meu objetivo é qualificar-me, se possível em primeiro. Quando me cruzei com o FC Porto em 2004/05, ganhámos o grupo. Quando regressei ao Porto, em 2006/07, nos oitavos-de-final, empatámos no Estádio do Dragão mas ganhámos em casa e passámos aos quartos. Repito: se não ganhar ao Sporting mas seguir na Champions, assino já!
 
 
«Sou mesmo o Happy One!»
DIZ QUE SÓ SAI QUANDO ABRAMOVICH LHE DISSER QUE ACABOU
R – Um ano depois, é mesmo o “Happy One”?


JM – Eu sou um “Happy One”! É a melhor pele possível, na vida e na profissão. O melhor momento que se pode ter é quando nos consideramos felizes. Nunca escondi que gostava do clube e gostava muito desta liga, desta competitividade, desta mentalidade, desta dificuldade diária. Como cidadão tenho sido um sortudo, pois eu e a minha família temos vivido sempre em cidades boas, as melhores europeias. Aqui em Londres é especial, é uma vida social diferente. Sinto um carinho especial pelo Chelsea e uma enorme vontade de voltar a fazer aquilo que fiz da primeira vez, ou seja, construir uma equipa que durasse uma série de anos. A diferença é que dessa vez não tinha o objetivo de ficar no clube muitos, muitos anos. Agora vou ficar até quererem que eu fique. Sou mesmo o “happy one”!


R – E dez anos depois o que mudou?


JM – Mudou ter tido o privilégio de escolher para onde queria ir. Não sabia para onde iria, mas tinha uma volta à Europa preparada. Tive sempre uma guerra interior que me desafiava: “eu quero ir a Itália ganhar”. Itália, onde estão todos os reis da tática. E com razão, pois apesar de o campeonato italiano já não ter a mesma expressão, é duro, muito duro. Havia também a Espanha, e depois de ter dado a volta era o privilegio de escolher o próximo destino. Bateu tudo em cheio e regressei.


R – São dois ciclos completamente diferentes. O que tem cada um de melhor e de pior?


JM – O primeiro apareceu numa altura em que o clube quer conquistar rapidamente e que é para mim a primeira experiência fora de Portugal. Apesar de ter saído com algum estatuto e campeão europeu, era importante continuar na senda de vitórias. Conjugou-se tudo muito bem. O Chelsea que na altura queria mesmo ganhar o seu primeiro título e ser alguém. Nós aqui recordamos muitas vezes o nosso primeiro estágio de pré-época do Chelsea nos Estados Unidos com treinos à porta aberta e dez pessoas a assistirem e jogos com um terço da lotação dos estádios.

Só sairei do Chelsea quando o míster Abramovich me chamar para dizer que acabou

R – Hoje, é bem diferente…


JM – Passados estes anos, o Chelsea é um grande clube europeu. Essa equipa foi construída rapidamente, pois não havia fair play financeiro, pelo que o proprietário podia fazer investimentos massivos e condensados em duas/três janelas de transferências. Dessa equipa, sobrevivem dois ou três e o Chelsea voltou a ter de construir uma equipa, mas agora com essa realidade do fair play financeiro. Ou seja, o superpotencial económico do nosso proprietário já não joga um papel importante. Agora, para construir, temos de fazer os jogadores, temos de vender, optar, quem vendemos, quando, por quanto, quem vamos comprar, onde vamos investir, enfim é um trabalho diferente, bonito e que neste momento também se encaixa na minha personalidade.


R – E de uma época para a outra o que fez?


JM – Se no ano passado tentámos ganhar competições sem ter condições para isso, este ano, que temos mais, obviamente que queremos um bocadinho mais e ganhar. Não vamos deixar de ter essa responsabilidade e ambição. Mas é um perfil de equipa completamente diferente.


R – Na temporada passada, o final da liga suscitou a ideia de que o Chelsea poderia ter sido campeão.


JM – Podia, mas sem ter tudo para ser campeão. Poderia ter sido, porque nos jogos diretos com os rivais adversários roubou seis pontos a quase todos, tirando o United, que empatou connosco. No entanto, tínhamos lacunas. O primeiro golo que os nossos pontas-de-lança marcaram fora de casa foi no dia 1 de janeiro em Southampton. No final do campeonato, os nossos três pontas-de-lança fizeram cinco golos fora de casa. Ainda assim, a três jornadas do fim, se tivéssemos ganho ao Sunderland em casa, teríamos sido campeões.

R – O que muda para se assumir como mais candidato?


JM – Temos um ponta-de-lança, Diego Costa, que já marcou mais golos em cinco jogos do que os outros no campeonato todo. É importante. O ano passado, o Luis Suarez e o Sturridge marcaram mais de 30 golos cada um no Liverpool; no City, o Agüero, o Dzeko, Negredo e o Jovetic juntos fizeram quase 80... Esta época, vamos ter quem os marque. Depois temos o Fàbregas, que redimensiona o futebol que tínhamos e o aproxima daquilo que os nossos jogadores da frente precisam. Ele gosta de ter a bola, pensa rápido, toca e ao mesmo tempo, pela sua idade e formação em Inglaterra, não precisa de adaptação.


R – Esta época, há mais exigência e cobrança?


JM – Não, o Chelsea é um grande clube, é um histórico. Venceu a Champions há poucos anos, conquistou três Premier Leagues nos últimos dez anos, é a equipa que tem mais taças ganhas, juntando a FA Cup e a Taça da Liga, e tudo isto tem um impacto tremendo nos mercados que valem muito dinheiro aos clubes ingleses. O Chelsea tornou-se grande, mas não é um clube com grande capacidade de investimento. O fair play financeiro é uma faca de dois gumes. Protege os clubes que têm um desenvolvimento enorme a nível comercial e de merchandising que lhes permite um encaixe financeiro tremendo sem a necessidade de os proprietários injetarem dinheiro. Neste momento, todos os grandes jogadores do futebol europeu, aqueles que custam 70, 80 ou 100 milhões, o Chelsea não compra. O Chelsea gastou dinheiro em Diego Costa, Filipe Luís e Fàbregas, mas ganhou mais a vender do que a comprar. Aqueles que, como nós, seguem à risca o fair play financeiro, estão numa situação mais indelicada.


R – Em Inglaterra há quem não cumpra?


JM – É a UEFA que o diz e os penaliza. Só que a penalização é ao nível financeiro. Não é em pontos ou em títulos. Logo, quem não cumpre parece não estar preocupado em ser castigado com mais uns milhões e pagá-los.


R – O fair play financeiro é então uma mentira?


JM – Acho que a UEFA está a fazer o controlo, e por isso não é uma mentira, teve as melhores intenções. Mas as consequências não são as esperadas.

R – Ainda tem alguma volta para dar na Europa?

JM – Só as voltas obrigatórias que a essência da profissão me obrigará a dar como treinador do Chelsea. Quando cheguei disse-o e não me canso de repetir: só sairei daqui quando quiserem que eu saia. Não há país, clube ou investimento que me motive. Só sairei quando o míster Abramovich me chamar para dizer que acabou. E só nesse dia voltarei a procurar outras soluções. Antes era diferente porque, estando de corpo e alma no projeto que liderava, tinha sempre uns segundinhos para perguntar a mim mesmo “qual será o próximo?” Agora é a primeira vez em que não penso nisso.

R – Em Inglaterra vê-se a treinar outro clube que não seja o Chelsea?

JM – Se tiver de ser, sim. Mas, como digo, a minha prioridade será sempre o Chelsea e nunca pensar no interesse de outros. Conheço o futebol e sei que não vou estar aqui cinco, seis, oito, dez anos se não conseguir ganhar. Obviamente que não. De resto, nem essa é a minha essência como treinador, porque não gosto de viver nessas zonas de conforto. É algo que não se adequa à minha personalidade. Por isso, respondendo à questão, direi que, quando e se tiver de pensar no assunto, logo se vê.
 
«Final de sonho? Sonho é jogá-la!»
JOSÉ MOURINHO NÃO TEM ADVERSÁRIO PREFERENCIAL PARA A CHAMPIONS

R – Qual seria para si a final de sonho da Champions?

JM – Chelsea contra qualquer um dos outros 35! Dá-me igual. Sonho é jogá-la!
 
«William já mostrou qualidade»
ALERTA PARA A IMPORTÂNCIA QUE É TER...CABEÇA
 
R – Há jogadores que estão a despontar no Sporting. João Mário é um deles. Conhece?

JM – Já sabia que as perguntas sobre jogadores do Sporting iriam chegar. O meu raciocínio não é de todo incorreto: se falo bem deles, motivo-os; se não falo bem deles, motivo-os também. Outro aspeto: se calhar o Marco não gosta que eu fale dos seus jogadores e o presidente do Sporting também não. Têm direito a não gostar, pois os jogadores são deles e não meus. Como tal, tenho de me posicionar nesta vertente respeitosa e tranquila.

R – Mas as pessoas gostam de saber o que pensa dos portugueses. Por exemplo, William Carvalho: terá futuro aqui?

JM – Porque não? Acho que o sucesso de um jogador no futebol inglês tem muito a ver com a pessoa que ele é e não apenas com os atributos técnico ou táticos. O futebol inglês tem características muito especiais. O tipo de competição e o acumular dos jogos obrigam a ter uma mentalidade forte. William é um jovem e já mostrou qualidade.

R – Podemos colocar o Chelsea como favorito?

JM – Acho que não. A qualidade dos plantéis dos dois grandes espanhóis e do Bayern tendem a colocá-los numa dimensão superior. Por outro lado, as equipas inglesas são espremidas ao máximo nas competições internas, não só pelas características dos próprios jogos mas também pela calendarização.Por exemplo, no próximo mês, nenhuma equipa europeia fará o que faremos: jogar domingo e terça.
 
«Nani deve estar muito motivado»
MOURINHO RECORDA PASSADO DO JOGADOR
 
R – O futebol português costuma só ter direito à veterania dos jogadores que saem para o estrangeiro. O Sporting conseguiu recuperar Nani...

JM – Deve ter sido em circunstâncias especiais. Sem querer entrar em áreas que não são as minhas, terá sido consequência da transferência do Rojo para o Man. United. O que na prática conta é que o Sporting tem um jogador de grande qualidade nos melhores anos da carreira. Talvez o seu objetivo não seja ficar no Sporting até final da carreira, mas sim para relançá-la e voltar ao Manchester. Deve estar muito motivado para esta nova etapa.

R – É um passo que faz sentido para um jogador com a qualidade dele?

JM – Normalmente, os jogadores querem jogar sem perder dinheiro. Às vezes são duas situações que não são fáceis de conciliar. Há sempre grandes jogadores que pelo facto de não estarem a jogar querem sair. O problema é saber para onde e em que condições. Há clubes que pagam uma parte do salário. Neste caso o Manchester, com um novo treinador a querer reformular, e muito, o seu plantel, presumo que deve ter havido interesse do clube para que o Nani saísse. Se o jogador é beneficiado com isso, não sei; se o Manchester sai beneficiado, também não sei; que o Sporting é beneficiado com isso, é de certeza absoluta.
 
«Encantado com Matic»
MOSTRA-SE FELIZ COM MÉDIO SÉRVIO
 
 
R – Que importância tem Matic no Chelsea?

JM – A mesma que os outros. Um bom jogador, adaptado ao campeonato, com características físicas ideais para aquilo que é o futebol inglês. Um rapaz excelente. Como disse, a pessoa é muito importante neste meio. É muito profissional, muito disponível para trabalhar e ajudar. Tem o perfil de jogador de equipa sem procurar ser o artista da companhia, apenas quer ser um simples e honesto jogador ao dispor do treinador e da equipa. Só posso dizer bem, estou encantado com ele.
 
«Drogba é para ficar»
GARANTE POSTO NA FORMAÇÃO DO CLUBE
 
 
R – Drogba é um regresso sentimental e futebolístico?

JM – É tudo. Para já, é um regresso para ficar. Já não vai haver mais Drogba na China ou no Galatasaray. Drogba será um treinador do futebol jovem ou adjunto da equipa principal ou embaixador do Chelsea ou assistente do diretor-desportivo. Vai haver um Drogba para aquilo que ele quiser, para o que o fizer feliz no pós-carreira, sendo um jogador que míster Abramovich quer ter no clube. É um regresso sem qualquer pressão, sem ter metas de golos, sem precisar de jogar mais ou menos. É importante para o clube e para o plantel. Sei que tem 36 anos e não 25 quando o contratei em 2004, mas sei perfeitamente onde e quando retirar o melhor aproveitamento dele.
 

Sem comentários: